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quarta-feira, março 31, 2004

Não batas tanto, desgraçado!!!
 

colapso mitral...comum em jovens mulheres com uma caixa toráxica como a minha, nada grave, requer apenas exames, de preferência anuais e acompanhados pelos anteriores, e que não apanhe infecções no coração. Sempre que for ao dentista deverei tomar antibiótico, mesmo que seja apenas para fazer uma limpeza aos dentes. Sempre que estiver ansiosa, dou-lhe com os comprimidos. Essa dor é normal porque o coração bate demais, nada que uns quimicozitos não resolvam...

Agora pergunto eu? Quer mal fiz eu, que detesto tomar sequer aspirinas, para sofrer tanto com o coração? Se não é de uma forma, é de outra. Preferia que se transformasse, de uma vez por todas, em pedra.

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A praia 

Hoje andei pela praia, senti o cheiro do mar que sempre parece estar revoltado e deixei aquele friozinho entrar-me pela pele. Adoro ir à praia quando o tempo está cinzento. Um dia hei-de viver numa praia.

Cresci muito perto de uma que agora é quase uma cidade com grandes prédios, com grandes erros arquitectónicos e paisagísticos, atrocidades que me fazem "doer a alma" e ainda mais quando as pessoas me dizem que essa praia é uma merda porque está descaracterizada, porque são maltratadas nos cafés e restaurantes e eu tenho que concordar.

Lembro-me de ser pequenina e existirem muitos terrenos baldios, de ir para a escola primária, que ficava a caminho da praia, por atalhos que eram uma aventura de cheiros do meu sul e de claridade constante como em poucos lugares que conheço neste país. (Peço que me perdoem por tantas vezes mencionar cheiros, cores ou sabores mas a minha vida rege-se muito mais pelos sentidos do que pela
razão...). Existiam muitas figueiras e amendoeiras, troncos secos, calhaus e terra seca. É a minha terra, lá sinto-me parte integrante da natureza, tão igual a qualquer pormenor da flora que me fascina e ainda hoje há alguma parte dessa terra que não foi inundada por arranha-céus onde não vive ninguém na maior parte do tempo. Mas os terrenos baldios por onde eu passava para ir para a escolinha ou para a praia, esses desapareceram. Bem, a verdade é que eu também já cresci, já se passaram uns bons anitos desde que não vivo lá mas continuo-me a perguntar a razão de se criarem cópias desinteressantes de masmarrachos para substituírem originais dádivas da natureza... Raios partam o dinheiro!!!!!!!!

Mas isto tudo para dizer que cresci a 2 km do mar e que agora vivo a uns 30 e sinto necessidade de o ver mais vezes. A paisagem é em tudo diferente. Lá também já não gostaria de morar, tenho a certeza cada vez que, logicamente, me apercebo que as minhas necessidades não são colmatadas apenas com os sentidos e que ficaria atrofiada se me contentasse com isso. Está-se longe de tudo e contra essa desvantagem geográfica não se pode fazer nada.

Entretanto, e voltando ao passeio que dei esta tarde, soube-me mesmo bem. Encontramos um ramo de rosas brancas ainda em botão. Começamos logo a imaginar o que se teria passado para alguém lá o ter deixado. Teria vindo do mar? Quem estava comigo disse que sim, que era o ramo que se atirou do Titanic (ehehehe). Eu acho que não, que a história se passou quando houve uma tentativa de reaproximação entre duas pessoas falhada. Ainda houve outra hipótese quando reparámos que havia uma mancha branca na areia, mas logo esse mistério se desvendou porque começámos a ver outra e mais outra mancha branca e apercebemo-nos que eram caganitas de gaivota!.. O mais provável que tenha acontecido foi uma coisa que, no meio da brincadeira, não pensámos: alguém o deve ter deixado em memória de outrem. Ainda não me saíu da cabeça o ramo.

E falando em ramos de flores, na última vez que fui a um casamento obrigaram-me a ir lá para o meio das "moças casadoiras" e tinha logo que calhar a mim. As raparigas, coitadas, devem ter visto a sua boda a andar para trás...

Quanto à pessoa que me acompanhou, é uma excelente companhia. Com ela aprendo sempre alguma coisa nova como, por exemplo, apalpar rochas e sentir-lhes o atrito para lhes descobrir a direcção em que houve a falha. Mas hoje também lhe mostrei que se pode comer lasanha de frutos silvestres embora sem grandes resultados porque lhe custa ainda mudar os sabores a que está habituado. Nem sempre conseguimos tornar a vida dos outros mais doce...o erro (se o há) não é nosso, é dos seus paladares.


img - Cercas, Carlos Carreto in 1000Imagens


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segunda-feira, março 29, 2004

A bonequinha de pano 

Se tu hoje a visses...dirías para ti que ela se parece com uma bonequinha de pano. Traz no cabelo dois xuxus e na boca um sorriso que só se a visses, hoje, poderias contemplar.

Levantou-se cedo e levei-a a tirar fotografias. Levei-a comigo para tratar de uns assuntos, depois fomos as duas comprar frutas e legumes frescos e cheios de cor e li-lhe um livro. Aprendeu que na vida não há momentos mortos e foi nessa altura que adormecemos as duas no carro. Quando acordamos disse-me que tinha sonhado contigo ao que eu respondi:"Meu anjo, os sonhos são uma outra forma de viver, é um estar lá sem se estar. Nos sonhos tudo é possível porque não há regras, és totalmente livre, podes fazer as asneiras todas que quiseres e estar com pessoas de quem tens saudades...".

Acho que compreendeu. Logo a seguir ao jantar disse-me que tinha sono e fui deitá-la.

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Eu tagarelaria...
 

Verbo TAGARELAR no Futuro

Eu tagarelaria

Tu tagarelarias

Ele tagarelaria

Nós tagarelariamos

Vós tagarelarieis

Eles tagarelariam


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domingo, março 28, 2004

"...cada um é seus caminhos..." 

Quanto ao poema de que ontem falei, andei doida à procura mas assim não o encontrava. Procurava por Miguel Torga, afinal foi António Gedeão quem o escreveu.

Várias vezes o refiro quando chego à conclusão de que não vale a pena batalhar para me fazer entender...

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
nao vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
"In the Land of Cervantes, Vladimir Kush"
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D.Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!



António Gedeão in "Movimento Perpétuo", 1956


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"Há sempre alguém que nos diz Tem Cuidado
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta...ai...saudade"



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Uma noite "mama".... ou "big mana", obrigada pela oferta... 

Ela pergunta-me "Não te vais deitar?". Eu repondo:"Sim mas já?!?!" Havia anos que eu não saía com a minha mãe... É estranho! Para já o facto de eu estar a escrever sempre adicionando mais letras do que devia (enquanto tento escrever o post), depois é a gata que não nos deixa em paz, além disso é os whiskys que não bebia faz tempo.... Depois é o "anda tomar um café a meio do caminho, amanhã..."

Tá tudo muito difícil de transmitir a esta hora da noite...como já disse, engano-me em uma série de letras " tá, bem. " . "Amanhã chamo-te para almoçar, vem cá o Vergílio....": " Tá bem, chama-me...". O que hei-de eu fazer?!?

Ofertaram-me com algo que eu não via há algum tempo. Aliás, pertence à minha irmã. Mas eu antecipei-me....A minha mana querida não está cá (e isto tá mesmo difícil de ser transmitido...), amanhã logo verá...agora eu um brinde a ela farei: "minha mana querida, amanhã cá estarei e em ti pensando hoje mocarei". Por agora, em ti pensarei... Até já, já, big little sister of my heart...I love you.
Ai os copos, benditos sejam...

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sábado, março 27, 2004

Estou maravilhada!.. 

O que é que eu faço?!? Estão cá em casa a fazer uma demonstração de uma máquina que faz tudo... Além de fazer limpeza a todo o tipo de carpets, estofos, etc, faz também massagens!!! UAU!!!!! Tou quase a explodir. Primeiro dizem que é uma empresa de grande prestígio, pertencente aquela detentora da GIllete, ScotBrit, Coca-cola... Grande prestígio, sim sr!!! Depois mostra-me uma escova e muito orgulhosa daquilo que diz revela que é de pelos de javali. Mato-a???? "Qual é o mal? Aproveita-se a carne..." Só me apetece chamar-lhe nomes. Gordurosa!!! Noto que está a ficar nervosa. Tento ser simpática, mas quando ela diz "não me diga que não compraria o produto por causa do pelo de javali?!?". Eu fiz-lhe aquela cara de "não tens a mínima hipótese, querida... põe-te mas é na alheta que daqui não levas nada". E o tempo passa. Tinha acabado de vir de uma reunião sobre um canil onde falta dinheiro para a comida dos cachorros que gente como ela abandona e vem-me uma besta destas impingir um produto (não digo que não seja eficiente) provavelmente caríssimo, pertencente à empresa da Coca-Cola, no qual são usados produtos animais (e também provavelmente testado neles).

Dois mil e tal euros. Está-se quase a ir embora. Não vou discutir. Não é justo. Eles estão a cumprir o seu trabalho, é assim que ganham a vida. A única opção era nunca ter aceitado uma demonstração deste género, mas não fui eu quem a marcou. Acho que seria falta de respeito mostrar demasiado os meus pontos de vista sobre a maneira como encaro a vida. Além disso não iriam entender...

Existe um poema de Miguel Torga que fala exactamente do entendimento das situações. Não o consigo encontrar. Mais tarde meto-o noutros post.

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...

 


PONTO DE VISTA

Foi bom,
Disse ele,
No sussurro da despedida.

Bom?
Pensou ela,
Triste e murcha.

Foi maravilhoso,
Desgraçado


Lucia Kuory





*Peço desculpa ao autor da foto por não o indicar, mas guardei-a há algum tempo atrás e agora já não a consigo encontrar na net. Fiquei apenas com o nome "brincadeiras"e fui buscá-la ao 1000imagens... Não resisti, acho que combina perfeitamente com o poema


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quinta-feira, março 25, 2004

O bilhete para o carrossel 


Ofereceram-me um bilhete para andar numa daquelas rodas gigantes que há nas feiras de que não sei o nome e eu ainda não sei se vou. Não é motivo para ficar triste, já sei... Talvez seja a ginástica que me tenha posto assim e em vez de me ter ajudado a descarregar as energias negativas me tenha sugado as positivas...Talvez seja, talvez não. A impressão que tenho é que as vistas podem ser muito bonitas quando estamos lá em cima mas certamente voltamos a descer,e a subir, e a descer...

Agora vou-me deitar, sozinha, não tenho vizinhos ou mesmo alguém que me deseje "boa noite"; não me passarão as mãos pelo cabelo e ninguém me vai aconchegar nos seus braços ou deixar as minhas pernas entrelaçar as suas - vou-me deitar e acordar sozinha. Tudo isto que acabei de dizer é a realidade, é ter a consciência do que tenho e não tenho e de que as coisas são como são, ou melhor, sei exactamente o que acontecerá quando desligar a máquina e apagar as luzes, não há ilusões de que a noite se venha a modificar.

Tenho medo de carrosséis porque é assim que tenho vivido desde há alguns anos para cá, ora sobe, ora desce. Aparece sempre alguém a querer vender-me farturas, outros com carteiras de pele falsas... As bifanas têm fama, mas eu já não como carne e quando me apercebo estou toda suja porque choveu e há lama por todo o lado.

Por outro lado pode ser bom. Mesmo que sempre a subir e a descer, são viagens. E o que somos nós senão mais do que a soma dos bons e dos maus caminhos que percorremos?


XXI

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...


Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...


O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...


Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

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A respeiro do post anterior, encontrei um cartoon de Luís Afonso que saíu no Público em 6 de Fevereiro deste ano:



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140 mil cts/mês 

Em conversa com dois amigos finalistas de desporto (bem atléticos, por sinal), a conversa foi dar ao futebol. Eu não sou nada apreciadora desse desporto, prefiro umas bicicletas ou uma corridinha, mas ainda sou menos apreciadora do negócio que gera.

Nunca pertenci a nenhum clube e mudo de canal sempre que está a dar futebol. Na escola eu até gostava de jogar, mas irritava-me porque se jogava com os rapazes eles não passavam a bola; se jogava com as raparigas (como era assim que os professores achavam certo), ficava parada a olhá-las porque fazia-me confusão elas andarem TODAS atrás da bola. Resumindo, eu e o futebol nunca nos entendemos. E pior, custa-me a entender como as pessoas vibram com aquilo mas, desde que não me obriguem a participar nem que venham para a minha casa e peçam para assistir ao jogo pela televisão, tudo bem.

Voltando à conversa que tive com os jeitosos, eles contaram que o "nosso" Figo ganha 115 mil contos mensais, limpos!!! Fora os prémios de jogo, a publicidade, etc, etc. Há um outro qualquer que ganha 140 e a rescisão de contrato do Figuinho ficou por 12 milhões de contos... Fiquei ABISMADA!!!!!!!!

Como é que é possível?!? Não me interessa que seja um desporto que gera milhões, não me interessa que eles deixem de trabalhar cedo, não me interessa que saia do bolso dos investidores os milhões (se sai é porque eles o ganharam, se eles o ganharam é porque produziram muita riqueza, se produziram muita riqueza não foi só com o trabalho deles). O que me interessa é que hoje ouvi a história de uma mulher com filhos que não dizia à assistente social que passavam fome porque tinha medo que lhe tirassem os filhos... O que me interessa é que minha irmã já deu aulas a miúdos que antes de ir para a escola iam trabalhar... O que realmente me interessa é que há muita miséria no mundo, de várias formas... e que é demasiado injusto fazerem-se negócios com quantias tão avultadas. Não digo que não houvesse negócio no futebol, ou em qualquer outra actividade, mas parece-me uma afronta a todos aqueles a quem custa sobreviver, sejam os povos do Sudão seja os trabalhadores de uma empresa portuguesa a ganhar o ordenado mínimo. Não devia existir tanta desigualdade. Primeiro deveríamos viver todos um pouco melhor... E lembro-me de uma das letras do Sérgio Godinho:
"Há justiça nesta vida
A prova é que a desigualdade está tão bem distribuída..."

Portanto, meus amigos, não me falem de futebol porque só me apetece é dar-vos um chuto na cara!

PS- Nunca fui admiradora nem sinto atracção por gajos bonitos demais, sempre achei que deveríam ter um daqueles defeitos que eu não conseguíria aturar.

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quarta-feira, março 24, 2004

Os conselhos da béu 



- Então, o que achas da carta de apresentação? Tenho hipóteses?...

- Claro que sim! Veste-te bem, não uses mini-saia, não leves a capa da Marvel, disfarça as olheiras e toca a mexer!!!

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Que bom que é! 

O MUESLI NOSSO DE CADA DIA

Alguns gramas de muesli com bastantes fibras integrais
1½ iogurte natural e magro
1 noz
2 amêndoas
1 avelã
1 ameixa seca
sementes de linhaça q.b.
sementes de sésamo q.b.
sementes de girassol (poucas)
2 morangos grandes*
5 uvas*

* a fruta é ao gosto de cada um e conforme o que houver no cesto


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Da Lena nasceu um caniche branco 

Tive uma noite muito atribulada:
A cadela ladrou a noite toda, de 10 em 10 minutos, sem razão aparente. Acho que está doida, e falo a sério. Leva a noite a ladrar, enquanto os outros estão calados... Tá doida de todo!!!
No sonho de que me lembro, a minha amiga Lena que está quase a ter bébe, pariu um caniche branco e estava toda contente... (desculpa, minha amiga, não é nada disso que eu te desejo!...)

Estranho, não é? Nem a minha cadela nem a Lena são caniches nem eu desejo que ninguém entre em trabalho de parto para ter um caniche ou mesmo que o compre ou que o ofereçam... acho que os caniches deviam ser esterilizados para que a raça fosse acabando por si... talvez assim nunca mais tivesse sonhos destes.

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terça-feira, março 23, 2004

O atalho da Rosalina 

PÉTALAS DO FUTURO

Numa tarde como todas as outras, Rosalina saiu para a rua. Lembrou-se que tinha que tinha deixado a caixa escondida por detrás daquela árvore no jardim, aquela que se fazia notar pelas flores da sua cor preferida e na qual tinha deixado no robusto tronco palavras que julgava eternas.

Por não reparar nos nomes das ruas por onde passava nem nos muros que suportavam a sua cidade, resolveu seguir por um atalho que conhecia de há algum tempo atrás quando visitava o jardim todos os dias. Esse atalho era um caminho com poucas casas e a na grande parte delas agora já não vivia ninguém. Eram casas antigas, protegidas por grades de ferro que circundavam os jardins agora envelhecidos. Só existiam restos do que outrora haviam sido plateias de festas, de chegadas a casa, de corridas de uns atrás de outros… Agora os portões estavam abertos para quem, por curiosidade ou má intenção decidisse invadir as suas histórias.

Rosalina, curiosa e decepcionada, decidiu entrar num desses jardins. Lembrava-se de passar pelo portão, com passos largos e de ver sempre a porta de entrada da casa aberta.

Desta vez também a porta estava aberta. Entrou. Ao seu lado direito existia uma sala pequena e quase vazia, não fosse uma velha e muito deteriorada secretária arrumada a um canto. Olhou em volta, para os outros compartimentos, mas deteve-se em conhecê-los. Sentiu medo, sentiu que estava a invadir o espaço, mesmo que abandonado, de alguém mas o seu único pensamento, naquele momento, era descobrir porque estava ali aquela secretária no meio do nada. Dirigiu-se para a sala e debruçou-se na janela de portadas tortas para olhar para a rua por onde costumava passar. Não resistiu. Viu-se a caminhar com o seu vestido azul, sandálias de cabedal e no cabelo trazia os ganchos que perdeu quando os arrancou na noite em que regressava para a sua tão esquecida casa. A mão agarrava uma caixa branca. Com passos apressados denunciava-se porque toda a terra estremecia cada vez que pousava as suas leves sandálias no chão. Olhou atentamente para a casa onde agora está e viu a porta aberta. Seguiu por essa rua em frente e não se viu mais.

Rosalina olhava agora para a secretária. Em cima estavam algumas folhas mas apenas uma estava escrita. Olhou em volta, como se não soubesse que ninguém a estava a ver, e pegou na folha, começando a ler.

Era uma carta de um homem dirigida a uma mulher. Estavam escritas poucas palavras porque se bastavam a si próprias, não foi preciso escrever muito para descrever a realidade. Dizia que pedia perdão por não estar ali e que tinha partido sem destino em busca de si próprio. Dizia também que a amava e que contava regressar em breve mas que se sentia incapaz de dar aquilo que não tinha e isso era a paz interior. Percorreria, sem rumo, caminhos que lhe despertavam os sentidos, provaria o silêncio da solidão para descobrir a música que o faria voltar.

As outras folhas estavam em branco. Rosalina pegou na caneta caída no chão e escreveu numa folha:

“Ficaste no jardim esquecido, escondido
Atrás das palavras que gravei no tronco que crescia…
Eras em mim pétalas do futuro
E as tuas cores faziam-me seguir atalhos
Para mais depressa te cheirar.

Hoje descobri que as ruas têm nomes
E que na minha cidade existe um muro.
Descobri que as portas abertas podem esconder casa vazias
E que as folhas brancas um dia se enchem de cor”

Saiu da casa, desceu o jardim envelhecido e retomou o caminho de volta para se sentar no muro e admirar a sua cidade.


img - Mada Primavesi, Gustav Klimt


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Leonardo Da Vinci, La Scapagliata

"Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria."


Pablo Neruda


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segunda-feira, março 22, 2004

Mata-me a curiosidade!... 

O júri foi aceite ou não?

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A respeito da memória... 

A memória, como já anteriormente disse, é uma grande traidora. Por vezes passo por mentirosa ou "esquecida por conveniência". Posto isto, decidi partilhar um conto de Agualusa para quem tiver paciência para o ler:


FALSAS RECORDAÇÕES FELIZES


O passado de Gonçalo começou a desmoronar-se à mesa de um bar, no Bairro Alto, várias cervejas depois da meia-noite, quando ao riso sucedeu o cansaço. Tinham descutido o namoro de Penélope Cruz com Tom Cruise. A conferência sobre racismo em Durban. As vantagens e os perigos do casamento. Então, em meio ao fumo amargo que enchia a sala, alguém lançou um novo tema - o Primeiro Beijo.
«Nunca me esquecerei», disse ele. «Foi em mil novecentos e setenta e oito, no dia em que fiz dezasseia anos. Tinha ido a um concerto do Cjico Buarque com alguns colegas do liceu. O Chico começou a cantar Eu te Amo que aliás não se presta muito para uma declaração de amor, é antes uma canção de despedida. Lembram-se?...»

Cantarolou com voz rouca:

«se nós, nas travessuras das noites eternas / já confundimos tanto as nossas pernas / diz com que pernas eu devo seguir. / Se entornaste a nossa sorte pelo chão / se na bagunça do teu coração / meu sangue errou de veia e se perdeu...»
Calou-se um momento, o olhar absorto, enquanto enrolava nostálgico uma madeixa do cabelo. Já não lhe restava muito cabelo de forma que aquele era um pouco deprimente. Suspirou.

«E então ela encostou a cabeça no meu ombro e eu beijei-a.»

«É bonito», reconheceu um dos amigos, crítico de música, um tipo que se gabava de saber quase tudo ou, em alternativa, tudo sobre quase tudo - e realmente sabia. A erudição dele incomodava os outros. «Seria ainda mais bonito se fosse verdade. Isso não pode ter acontecido em mil novecentos e setenta e oito. O Chico Buarque só criou essa canção, em parceria com o Tom Jobim, dois anos mais tarde.»

Gonçalo olhou-o perturbado:

«Disparate! Tenho a certeza que o Chico cantou essa música na noite em que fiz dezasseia anos, portanto em mil novecentos e setenta e oito. Foi nessa noite que comecei a namorar com a Marisa. Infelizmente nunca mais soube nada dela. Vocês lembram-se da Marisa, Não se lembram?»
Não, ninguém se lembrava da Marisa. A Gonçalo, todavia, bastava fechar os olhos para voltar a vê-la. Era uma rapariga alta e flexível, com grandes olhos negros, melancólicos, e um alheamento pelas coisas do mundo que a fazia parecer imaterial. apetecia ao mesmo tempo protegê-la e ultrujá-la. Confrontados com a descrição de Gonçalo todos lamentaram não ter conhecido a Marisa. Na mesa ninguém se lembrava dela. Pior: nem sequer se lembravam dele por essa altura.

«Só te conheci em mil novencentos e noventa», precisou o crítico de música. «Num concerto de Cesária Évora.»

Aquilo era demais. Gonçalo levantou-se indignado:

«Nunca estive num concerto de Cesária Évora. Nunca!»

Ninguém disee nada. toda a gente sabia que o crítico de música jamais se enganava nos factos. Menos ainda nas datas. Gonçalo tirou uma nota do bolso e colocou-a sobre a mesa.

«Eu já vou...»

Nenhum dos amigos procurou detê-lo. Gonçalo saiu aflito para a noite mansa. Qual era a sua recordação mais antiga? Esforçou-se um pouco. recordava-se de ter assistido pela televisão à ocupação de Goa pelas tropas indianas. devia ter uns cinco anos, seia no máximo, ainda não andava na escola. Voltou ao bar e perguntou ao crítico de música:

«Olha lá, sabes dizer-me quando é que perdemos Goa?»

O outro nem pestanejou:

«A dezoito de Dezembro de mil novecentos e sessenta e um.»
Gonçalo respirou fundo. Nessa data ainda nem era nascido. Seria possível que todas as suas memórias fossem apócrifas? Voltou a sentar-se, trémulo, e pediu mais uma cerveja. se não podia confiar nas próprias recordação não havia nada em que pudesse confiar. O crítico de música citou Bunuel:

«Uma vida sem memória não é uma vida.»

Depois percebeu que aquilo não tinha nada de animador e tentou emendar:

«O teu caso não me parece tão grave. Tens uma vida. É falsa, sim, mas no afinal de contas é uma vida.»

«Mais valem falsas recordações felizes», acrescentou um outros, «do que lembranças autênticas e desgraçadas.»

Gonçalo estava inconsolável:

«Vocês acham que eu nunca beijei a Marisa?»

Ninguém respondeu. Talvez tivessem bebido demais. Talvez fosse demasiado tarde. talvez achassem realmente que ele nunca beijara a Marisa.


José Eduardo Agualusa, Catálogo de Sombras










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domingo, março 21, 2004

Para ti que queres novidades...

 

Ouvi ontem um reverendo no festival de blues. Espectacular!!!! É só pena que se ouvi-se tanto a palavra Jesus ou Lord... Mas não interessa porque podemo-nos abstrair e ele era mesmo bom! Além disso, existe a tolerância, não é verdade? Conseguiu pôr toda a gente a cantar e a bater palmas ao ritmo do som e até nos tirou fotografias. Gostei particularmente quando ele pediu desculpas pelo presidente do seu país e contou a história do rato que, coitado, queria sair da retrete dele, lembrando que também ele procurava a luz... enfim, valeu a pena.
Quanto ao outro grupo a coisa era um bocado mais negra...mas também foi bom.

A seguir fui para uma festinha ouvir um reggeazito à maneira. Balança, rodopia,
mexe mexe. O problema é meu...eu é que já não tenho paciência para aturar tantas bordoadas nos cabeça.

Às vezes penso que me estou a tornar um bicho-do-mato....outras que me estou a tornar uma elitista de merda...outras que as minhas andanças já não são aquelas que o pessoal da minha idade curte...eu penso tanto. Tanto. Tanto. Tanto. Se calhar o mal é esse: quem pensa demais, normalmente é infeliz.

Acordo constantemente em lugares aos quais eu não pertenço e logo me vem à ideia: "o que é que eu estou a fazer aqui?!?". É terrível. Não tenho paciência para grupinhos, para conversas de chácha e, por mais incrível que pareça, também já não tenho paciência para grandes mocas e saídas constantes. Além disso, parece que tenho escrito na testa "não te aproximes que levas" ou então devo ter um ar de superioridade que repulsa as pessoas. Já me disseram que as intimido...a verdade é que eu me sinto segura e senhora do meu nariz, como se costuma dizer, não me considero cínica ou hipócrita e estou bastante à vontade em qualquer lado.

Arranjo-me como quero, não tenho piercings, tatuagens ou rastas, não sou produto de uma produção em série nem faço parte de nenhuma tribo. Cada vez mais acredito que o Admirável Mundo Novo não é ficção.

O meu riso não é estridente (como aquele das loiras lá no festival...), tanto ouço Bille Holiday como Digital Jockey (que estou a ouvir agora) como Mísia ou Piazzolla, ou Gato Barbieri ou Maria Callas ou Hedningarna ou Zuco103 ou Sérgio Godinho ou Radio Tarifa... A música é uma paixão e a pirataria ajuda-me a mantê-la.

Tanto durmo num hotel de 5 estrelas como no carro como dormi hoje, escrevo a azul ou a preto e se escrevo a vermelho não é para mandar ninguém à merda mas sim porque gosto do vermelho. Acredito que a natureza é invencível, que Deus não existe e que a televisão não nos faz falta .Toda a gente é importante, ninguém nasce mau e o desejo do menino dos Favores em Cadeia é possível. Amo os meus cães e gata como a pouca gente, pinto os olhos de negro quando me lembro e gostava que alguns segundos da minha vida fossem eternos. E não digo minutos, digo segundos... Amo uma pessoa de cada vez e podia ser só essa vez a única e gosto de admirar a lua bem longe porque jamais pensaria em lá ir. Abomino qualquer espectáculo de sangue ou de gozo de pessoas ou animais e não gosto que me sirvam o prato de comida. Tenho sempre as mãos frias, faço nudismo e encanto-me com a poesia. Fumo que nem um cavalo mas não quero deixar de fumar, tenho um medo terrível de não poder conceber um filho e não sou contra o suicídio. Gostava que toda a gente tomasse uma vez na vida ecstasy, que fossemos generosos com o próximo e que os escuteiros não cantassem nos comboios. Não conheço ninguém tão preguiçoso quanto eu e a memória ou melhor, a falta dela, é o que mais me trai na vida. Em contrapartida consigo encontrar beleza em infímos pormenores como um nó da madeira ou uma racha na parede mas muitas vezes não acho piada às anedotas e tenho tendência a ter sono quando o filme, por mais interessante que seja, é muito longo. Existem muitos factos importantes na História que desconheço, não consigo divertir-me em feiras populares e dou-me melhor entre os homens que entre as mulheres. Conheço vários Pedros, Joões(?) e Josés mas só conheço um Artur, um Luís e um Jervásio... Acredito muito pouco nos políticos mas pertenço a um partido, não sou religiosa mas tenho fé, não acredito na astrologia mas orgulho-me de ser touro e ter também ascendente touro...

Acho que é tudo normal o que acabei de dizer, não é? Não é razão para intimidar seja quem fôr com esta "estranha forma de vida?", nem com os meus ideais...o problema é mesmo meu, ou talvez nem seja problema porque gosto de ser assim e tenha é pena que os outros que não compreendam que há outros bichos-do-mato que andam aí...


img - "Madonna" , Munch Edvard

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sábado, março 20, 2004

Brinde no final dos blues 

A noite ontem foi de blues...
Houve pão-de-ló de Rio-Maior, cerveja q.b. e no final da noite, ou melhor, na claridade do amanhecer houve o melhor da festa...descobri que havia um brinde no bolo e ainda estou engasgada.

Por ainda estar com a garganta toda entalada, faço aqui um brinde aos amigos.

Meus amigos,

Cada um dos momentos da nossa vida nós vamos crescendo, crescendo e aprendendo. Amadurecemos.
Tornamo-nos menos pacientes para arredondamentos de questões, para escapatórias como "tens razão" ou "deixa lá" ("ya" então é o cúmulo da desconsideração). Vamos exigindo que as palavras sejam ditas com o máximo de frontalidade, porque sabemos que a vida não é cor de rosa mas que as cores que a vida nos oferece apenas podem ser admiradas com os olhos bem abertos, sem poeira pela frente...

Uma vez alguém me disse que não há momentos bons para dizer coisas más, nem momentos maus para dizer coisas boas. Esse alguém é uma das pessoas que mais admiro porque não escolheu a melhor altura para me dizer o inevitável...a ele e a todos que têm coragem para para me dizerem o que pensam, bem hajam!!!

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sexta-feira, março 19, 2004

coimbra...is blue 


"Cercle jaune", Kandinsky Wassily

blue night
blue moon
blue fight to see you soon,
blue eyes



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Dança de mágoas 

Como inútil taça cheia

Como inútil taça cheia
Que ninguém ergue da mesa,
Transborda de dor alheia
Meu coração sem tristeza.
Sonhos de mágoa figura
Só para Ter que sentir
E assim não tem a amargura
Que se temeu a fingir.

Ficção num palco sem tábuas
Vestida de papel seda
Mima uma dança de mágoas
Para que nada suceda.

Fernando Pessoa




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Gabriel 

"Lia nas aulas, com o livro aberto em cima dos joelhos e com tal descaramento que a minha impunidade só parecia possível devido à cumplicidade dos professores. A única coisa que não consegui com as minhas astúcias bem rimadas foi que me perdoassem a missa diária às sete da manhã. Além de escrever as minhas tolices, era solista no coro, desenhava caricaturas cómicas, recitava poemas nas sessões solenes e tantas coisas mais foras de horas e de lugar que ninguém entendia a que horas estudava. A razão era a mais simples: não estudava.
No meio de tanto dinamismo supérfluo, ainda não entendo porque razão os professores se interessavam tanto por mim sem barafustar com a minha má ortografia. Ao contrário da minha mãe, que escondia do meu pai algumas das minhas cartas para o manter vivo e outras mas devolvia corrigidas e às vezes com os parabéns por certos progressos gramaticais e o bom uso das palavras. Mas ao fim de dois anos não houve melhorias à vista. Hoje o meu problema continua a ser o mesmo: nunca consegui entender porque se admitem letras mudas ou duas letras diferentes com o mesmo som e tantas outras normas sem razão.
Foi assim que descobri em mim uma vocação que me havia de acompanhar toda a vida: o prazer de conversar com alunos mais velhos do que eu. Ainda hoje, em reuniões de jovens que poderíam ser meus netos, tenho que fazer um esforço para não me sentir mais novo do que eles."

Viver Para Contá-la, Gabriel garcía Marquez

Soube ontem que te vais embora...



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quinta-feira, março 18, 2004

Para ti,  

"Thursday's Child"

All of my life I've tried so hard
Doing my best with what I had
Nothing much happened all the same

Something about me stood apart
A whisper of hope that seemed to fail
Maybe I'm born right out of my time
Breaking my life in two

(Throw me tomorrow, oh oh)

Now that I really got a chance
Everything's falling into place
Seeing my past to let it go
Only for you I don't regret

And I was Thursday's child
(Monday, Tuesday, Wednesday, born I was)

Sometimes I cry my heart to sleep
Shuffling days and lonesome nights
Sometimes my courage fell to my feet

Lucky old son is in my sky
Nothing prepared me for your smile
Lighting the darkness of my soul
Innocence in your arms

(Throw me tomorrow, oh oh)

Now that I really got a chance
Oh ho, everything's falling into place
Seeing my past to let it go
Only for you I don't regret
And I was Thursday's child

(Monday, Tuesday, Wednesday, born I was)
Thursday's child

David Bowie

Para ti


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Bate bate coração que a seguir vem o pulmão 

75 frequências cardíacas por minuto...

análises à tiróide.
ecocardiograma.


A seguir são os pulmões...

raio x.


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Qual vai ser a verdade amanhã?.. 

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

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quarta-feira, março 17, 2004

Ai os cursos, os cursos... 

Tirei um curso de htlm, infelizmente está quase tudo esquecido. Tá a ser difícil, mas é um gozo do caraças!!!!

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Porque é que estou a fazer isto e não isto? 


Jew At Prayer, Marc Chagall

Era o que eu gostava de estar a fazer neste momento. Não digo rezar, digo ler. Merda de vício que há mais de 120 minutos me impede de ir embora.

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Um nada que vai ser tudo 

"As mulheres, decididamente, triunfaram. Os seus orgãos genitais, com perdão da crueza anatómica, eram afinal a expressão, simultaneamente reduzida e ampliada, da mecânica expulsória do universo, toda essa maquinaria que procede por extracção, esse nada que vai ser tudo, essa ininterrupta passagen do pequeno ao grande, do finito ao infinito. Neste ponto, é bom de ver, os glosadores e hermeneutas perdiam o pé, nem é para admirar, porque de mais nos tem ensinado a experiência quanto são insuficientes as palavras à medida que nos aproximamos da fronteira do inefável, queremos dizer amor e não nos chega a língua, queremos dizer quero e dizemos não posso, queremos pronunciar a palavra final e percebemos que já tinhamos voltado ao princípio."

Jangada de Pedra, José Saramago


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terça-feira, março 16, 2004

Morada para quê? O que me espera??? 

Perguntou-me qual a minha morada. Será para quê?
Vou receber uma carta de despedimento ou um convite para subir a tal montanha que tanto ouvi falar???
Respondi-lhe que às vezes moro no céu, outras vezes no inferno. Mas lá acabei por dá-la. A curiosidade é tanta, tanta.
Contudo, é sempre melhor nunca ter grandes expectativas porque quando idealizo as coisas dão pró torto. Tem sido sempre assim e voltando novamente ao bolero, nem sempre se dança aquilo que se quer...


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O bolero tem destas coisas...

 

Anja Hitzenberger


Consegui!!!!!
Como estou contente!!!... Afinal sabe bem, MESMO BEM, termos a prova viva de que somos capazes.

Agradeço agora às minhas insónias, aceitáveis porque não tenho que me levantar cedo para trabalhar, porque me fizeram redescobrir a noite e o seu silêncio.

Não há nada que pague o silêncio. Só consigo ouvi-lo de noite. Os cães estão calmos, os bombeiros a dormitar, os correios fechados...a minha mãe dorme, ninguém me vai telefonar e não se ouve a tvi da vizinha de baixo...

Hoje até tenho calor. Estou com as calças arregaçadas, já tirei o casacão do costume. Não tenho a barriga cheia, a bexiga é que já pesa há algum tempo, daqui a pouco vai ter que ser...não escapa!

Ouço o Bolero, 16 minutos de pura satisfação. Ouvi-lo-ía o resto da noite mas o melhor é mesmo só o ouvir mais esta vez, ou talvez ainda mais uma. Tenho medo de chegar à cama e que o som não me saía da cabeça. E depois? Já sei com o que vou sonhar...o bolero tem destas coisas. Mas como é que eu faço se ouvir o bolero nos sonhos? Será que vai ser um sonho bom ou um sonho mau? É que o bolero tem destas coisas, tanto se dá para a alegria como para a tristeza. E depois?




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Quatro pessoas dentro de um automóvel 


"A viagem não teve história, é o que sempre dizem os narradores apressados quando julgam poder convencer-nos de que nos dez minutos ou dez horas que vão fazer sumir nada sucedeu que merecesse menção assinalável. Deontologicamente, seria bem mais correcto, e outra lealdade, dizer assim, Como em todas as viagens, sejam quais forem duração e percurso, aconteceram mil episódios, mil palavras, mil pensamentos, e quem disse mil diria dez mil, mas o relato já vai arrastado, por isso tomo licença de abreviar, usando três linhas para andar trezentos quilómetros, fazendo de conta que quatro pessoas dentro de um automóvel viajaram caladas, sem pensamento nem movimento, fingindo elas, enfim, que da viagem feita não fizeram história."

José Saramago in Jangada de Pedra

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"A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos."
George Bernard Shaw


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Pelo caminho me levam... 



 Ainda ontem pensava que não era


 Ainda ontem pensava que não era
 mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
 na esfera da vida.

 Hoje sei que sou eu a esfera,
 e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

    Kahlil Gibran


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Pensar torna as coisas certas ou erradas 




"Se no ríssemos quando os outros riem e chorássemos quando os outros choram, então deveriamos preparar-nos para morrer como eles morrem e viver como eles vivem. Isto significa estar certo e ficar a perder ao mesmo tempo. Significa estar morto quando se está vivo e estar vivo só quando se está morto.
...
Nada está certo ou errado, mas pensar torna as coisas certas ou erradas. Deixamos de acreditar na realidade e passamos a acreditar no pensamento. E quando somos empurrados da beira do abismo, os nossos pensamentos acompanham-nos e não nos servem de nada."

Henry Miller in Trópico de Capricórnio

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