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sexta-feira, abril 30, 2004

zodíaco 

O céu nocturno está cheio de vida terrestre.
As estrelas são flores.
As constelações animais ao espelho.
A memória de que são feitas as estrelas
é a matéria de outro sangue.
Olho o céu de noite como se visse a terra
de dia.
O céu é um estábulo onde a luz é matéria
sublimada.
Os animais da terra comem flores
os do céu comem estrelas. Em vez de sangue
têm luz.
Vejo-me calado entre os homens celestes
que se movem na abóbada como ideias.
O céu também é um chão.
Um chão feito de memória.
Pisam-se lá em cima astros
como se pisam pedras em baixo.

António Cândido Franco

Irina Savkina, Milk Way

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Amor mio 

deja que el viento pase
sin que pueda llevarme.


Pablo Neruda

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el viento en la isla 


EL viento es un caballo:
óyelo cómo corre
por el mar, por el cielo.

Quiere llevarme: escucha
cómo recorre el mundo
para llevarme lejos.

Escóndeme en tus brazos
por esta noche sola,
mientras la lluvia rompe
contra el mar y la tierra
su boca innumerable.

Escucha cómo el viento
me llama galopando
para llevarme lejos.

Con tu frente en mi frente,
con tu boca en mi boca,
atados nuestros cuerpos
al amor que nos quema,
deja que el viento pase
sin que pueda llevarme.

Deja que el viento corra
coronado de espuma,
que me llame y me busque
galopando en la sombra,
mientras yo, sumergido
bajo tus grandes ojos,
por esta noche sola
descansaré, amor mío.

Pablo Neruda

img - Marianne Grommet-Bangwa, Rêve Yang

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quinta-feira, abril 29, 2004

Poema destinado a haver domingo 




Edvard Munch, The Voice



Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.


Natália Correia



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quarta-feira, abril 28, 2004

Pois sobrevivi... 

Não foi só ao Bushmills que eu sobrevivi...


Sobrevivi ao desejo louco que tinha de te agarrar na praia, te saltar para a espinha, de te sugar todos esses quilómetros de pele, milimetro por milimetro, de te mandar umas mordidelas no pescoço, de te fazer suar em bica de prazer com a minha boca de papão, de fazer amor contigo de corpo e alma, atingir a harmonia da unidade no meio do mar, da areia, das rochas...a sorrir, a gemer, a guinchar de satisfação.

És uma delícia feita homem, a única carne que devoro, faminta e insaciavelmente, vezes e vezes sem conta...e eu, eu sobrevivo bem aos Bushmills, don't worry!!!


img - Pormenores de um dia de férias..., Jorge Casais

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Para ti, 

boa viagem

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Alguém me saberá contrariar? 


Bill Mack, Enigma ( Bounded Brounze)


Alguém me sabe explicar o que é a repressão da liberdade de um perante a liberdade de outro?

Isto é, devemos conter (abafando e desacreditando - forçosamente!) as nossas emoções quando elas não correspondem às dos outros?...

Devemos resignarmo-nos à exclusão?

Tenho a impressão que sim.

(A liberdade de quem gosto é uma amarra que me sufoca...contudo, não devo ser jamais qualquer atilho na vida seja de quem for...

E a liberdade, a liberdade... a liberdade não existe!!!)

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terça-feira, abril 27, 2004

Ninguém percebeu que quem nasceu há uns anitos atrás fui eu...

Mesmo assim, obrigada pelos comentários.

Agora vou jantar e brindar!!!

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nascer 


(desconhecido)

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segunda-feira, abril 26, 2004

Procurar o sossego caminhando pela via da realidade 

O que eu mais queria para esse dia? Sossego...

E o que é isso de sossego?

Para mim, nesse dia, seria não atender aqueles telefonemas chatos em que nos é dito sempre a mesma coisa mas sim receber um postal de alguém de quem não estivesse à espera e talvez com um selo de um lugar longínquo...

Seria não ter compromissos em celebrar o meu dia com aqueles que se acham merecedores mas apenas com quem me apetece estar...

Seria não receber prendas que caibam em caixas mas um telefonema para uma entrevista prometedora de trabalho.

Seria partilhar uma garrafa de vinho e revirar os olhos de prazer...

Amanhã tenho que começar a preparar o terreno para, consciente de que nada disso me vai acontecer, procurar o sossego possível, encarando com a verdade crua a realidade.

E o que é isto de realidade?

Realidade para mim, nesse dia, é levantar-me de manhã, pegar na cadela, ir até à praia e passar umas horinhas exactamente da mesma forma que vim ao mundo, respirar aquele ar semi-puro, não ter rede no telemóvel, ir para a casa vazia dos primos, comprar uma garrafa de vinho e brindar à merda da vida que vai passando.

Se pelo menos isto se cumprir, então no dia seguinte acordarei morena, ressacada, com algumas mensagens para ouvir e estarei exactamente tão mais velha como em qualquer outro dia em que esteja viva... e a merda da vida desenrolar-se-á à sua maneira como se nada tivesse acontecido.


img - Spiral of Time, Vladimir Kush

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sábado, abril 24, 2004

Cada vez mais sittin' on a dock of a bay, wastin' time muito bem....

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sexta-feira, abril 23, 2004

Tudo ao molhe... 

Ou não tenho ninguém ou aparece logo uma data de gente ao mesmo tempo a querer passar alguns momentos comigo. Vamos lá ver se dá certo. Ainda por cima já não estou com nenhum dos três há uma data de meses...

Todos os meus amigos são pessoas diferentes umas das outras. Normalmente não os costumo cruzar, hoje não dá para fazer isso. Com um pouco de sorte e algum vinho à mistura pode ser que tudo corra bem.

Só uma coisa é certa: quando estou sozinha em casa existe uma data de saídas, abrem-se as portas para me divertir e passar bons bocados. Resumindo...preciso mesmo de trabalhar!!! Preciso de ter o meu espaço porque quando parece que estou sozinha é mentira, é nessa altura que estou mais acompanhada.


Nicole Folkes, Evening Swing

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quarta-feira, abril 21, 2004

...the film is a sadding bore... 


Vladimir Kush, Recollection



It's a god-awful small affair
It's on Amerikas tortured brow
To the girl with the mousy hair
That Mickey Mouse has grown up a cow
But her mummy is yelling "No"
Now the workers have struck for fame
And her daddy has told her to go
'Cause Lennon's on sale again
But her friend is nowhere to be seen
See the mice in their million hordes
Now she walks through her sunken dream
From Ibeza to the Norfolk Broads
To the seat with the clearest view
Rule Britannia is out of bounds
And she's hooked to the silver screen
To my mother, my dog, and clowns
But the film is a saddening bore
But the film is a saddening bore
For she's lived it ten times or more
'Cause I wrote it ten times or more
She could spit in the eyes of fools
It's about to be writ again
As they ask her to focus on
As I ask you to focus on
Sailors fighting in the dance hall
Sailors fighting in the dance hall
Oh man! Look at those cavemen go
Oh man! Look at those cavemen go
It's the freakiest show
It’s the freakiest show
Take a look at the lawman
Take a look at the Lawman
Beating up the wrong guy
Beating up the wrong guy
Oh man! Wonder if he'll ever know
Oh man! Wonder if he'll ever know
He's in the best selling show
He's in the best selling show
Is there life on Mars?
Is there life on Mars?



Is there life on Mars?



David Bowie, Life on Mars


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terça-feira, abril 20, 2004

Auto de um dia de atalhos 

Auto da Barca do Inferno

À tarde, no Cine-Teatro da vila, com mais de uma centena de putos do 3º ciclo. Pairava um cheiro fedorento a suor e as gargalhadas sem fim ouviam-se mais do que o eco dos pobres actores. Pelo menos deu para ver que não tenho paciência para adolescentes em grupo. Sozinhos acho-os fantasticos, ouvir-lhes o brotar de ideias novas; em grupo, ide lá para bem longe.

Gato

Encontrei um gato no jardim de um prédio que miava aflitivamente e que parecia ter uma pata com cola, além da magreza que não passava ao lado. Fui à veterinária para que ela resolvesse o assunto. Chegando lá pegou no animal em sofrimento e reparou que havia sangue e que a pata não tinha cola mas sim estava a apodrecer. Pobre animal que nem se podia mexer para comer, já estava anémico e com hipotermia. Levamo-lo para a clínica e decidimos eutanasiá-lo. Poderia, talvez, ser salvo, mas a perna teria de ser amputada. A única pessoa que poderia ficar com ele, caso se safasse, era eu pois não há quem queira dum gato de três pernas para animal de estimação. Eu não posso, a minha casa já é um zoo e o dinheiro não chega. Melhor acabar com o sofrimento de uma vez por todas, tal como se deveria fazer com as pessoas.

Ginástica

Está a melhorar, já perdi a pouca barriga que tinha e o rabo tá mais redondo e rijinho. Boa resistência para que fuma 1 maço por dia. A música é que transtorna tudo, vai desde Celine Dion com batida, Marco na Montanha e para os alongamentos finais...Abrunhosa. Eu bem ofereci ao prof. Dj Marky, mas ele nem se dignou a passar qualquer uma das músicas. Cromo. Nunca ouviu falar do Hard Rock Café e acho-o um bocado infantil (talvez influência dos garotos a quem dá aulas na escola, a minha irmã também se sai às vezes com aquelas anedotas secas dos putos.). Enfim, apesar de tudo, vale a pena.

Auto da Índia

À noite, novamente no Cine-Teatro da vila. Os actores eram os mesmos da tarde mas desta vez a sala estava vazia, ou melhor, não seriam mais de 20 as pessoas que assistiam à farsa de Gil Vicente. A minha mãe, professora de Lingua Portuguesa, era a única professora que assitia à peça que era dedicada aos alunos da noite. Estavam lá alguns dos seus alunos e pouco mais. A peça durou apenas 40 minutos, quase nem se percebia o que diziam, penso que contracenaram a correr estando desejosos de acabar o dia.

Chegada a casa

Nada de novo. Net e chocolate fumado, daqui a pouco leitura e weetabix.

Conclusão

Tou farta deste quotidiano de merda e
Desta terra de merda.
Não encontro trabalho para fazer aquilo por que andei a estudar e que, só por mero acaso, nem me agrada muito...por agora era maravilhoso estar a trabalhar.
Ainda não encontrei o que realmente gosto de fazer e todos me pressionam para que o ache com rapidez.
Inscrevi-me no programa Lusíadas, mas nem para voluntariado me chamam.
Só tenho dinheiro para o indispensável.
Para a semana já faço mais um anito e, por este andar, fico velha.
"Filhos?!? o Quê...4? Não vais ter tempo...esquece."
O pior de tudo é que não há amor à vista, penso que tardará porque não consigo achar graça em ninguém. Já nem sei o que é o bolero.

Enfim, os meus problemas não são nem maiores nem menores que os dos outros. Só desejo é que esta fase passe rapidamente e que pelo menos o trabalho (pelo dinheiro e ocupação) e o amor (que é o melhor da vida) se resolvam a fazer uma visita o quanto antes.



Há dias
Em que não cabes na pele
Com que andas
Parece comprada em segunda mão
Um pouco curta nas mangas

Há dias
Em que cada passo e mais um
Castigo de Deus
Parece
Que os sapatos que vês
Enfiados nos pés
Nem sequer são os teus

À noite voltas a casa
Ao porto seguro
E p'ra sarar mais esta corrida
Vais lamber a ferida
Para o canto mais escuro

Já vi
Há dias em que tu
não cabes em ti

Avança
Na cara desse torpor
Que te perde e te seduz
A espada como a um Matador
Com o gesto maior
Do seu peito Andaluz
Avança
Com a raiva que sentes
Quando rangem os dentes
Ao peso da cruz
Lost Angel-less, Bruce Gueswell
Enfim,
Há dias em que eu
Também estou assim

Parece que pagamos os
Pecados deste mundo
Amarrados aos remos de um
Barco que está no fundo.


"Há dias em que mais vale...", João Monge




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segunda-feira, abril 19, 2004

"Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam
duros e escarpados.



Noah Buchanan, Study for Empowerment


E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir."

Kahli Gibran





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domingo, abril 18, 2004

O Corpo Exige 


Katherine Fraser, "Denial of Choice"

Presto distraída atenção ao meu corpo.
O que me pede, eu faço.
Às vezes, não entendo logo suas ordens, mas
cedo sempre.

Me achego a ele e indago:
-O que queres? Ah, é isso? Então, concedo.
Sempre que eu resisti
um de nós saiu-se mal.

Nas 24 horas do dia, ele pede,
e quando cala, fala
num discurso de sonhos
que me abala.

Ele sabe. Eu sei que ele sabe,
e sabe antes de mim, e nele
eu sei dobrado, sou um-e-dois
como os dois cortes de um sabre.


Affonso Romano de Sant'Anna

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sábado, abril 17, 2004

Ain't no montain high enought...
 

Que vazio...

Ele disse que se sentiria assim, perdido quando se fosse embora... Tentei reconfortá-lo, não imaginava que me acontecesse a mim o mesmo, não é normal.

Costumo ser rija, impedir que a saudade me abata mas hoje não sou uma fortaleza. Sou o vazio e provavelmente mais do que ele que nem tempo terá para se sentir só.

Chegou já ia tarde a noite. Fui buscá-lo longe e valeu a pena. Trazia consigo apenas a roupa do corpo e nesse momento foi-me confirmado que os verdadeiros sentimentos encurtam distâncias e ajudam-nos a enfrentar medos. Nesse momento senti que nada é mais importante do que ter um amigo, nada.

A verdadeira amizade é raios de sol, é cor e calor, é amor.

Andou comigo ao colo quando ainda era maior que eu.

Acompanha-me desde que nasci, lembra-se das minhas birras de bebé e mais tarde, quando já era uma menina grande fui eu quem o pegou ao colo embalando-o com paixão. Hoje o que existe é amor, o mais puro amor que o faz sentar no meu colo e eu no dele quando um de nós diz "preciso de ti".

A paixão foi-se embora, cedeu lugar à amizade. Descobrimos que fim-do-mundo é real - qualquer um de nós resgataria o outro bastando para isso um código morse telepático -, e nenhuma montanha é tão alta que nos seja impossível mover.

É uma das pessoas mais sensíveis que conheço e, incondicionalmente, uma das duas pessoas mais "taradas" sexuais que me rodeiam.

A conversa vai ter sempre ao mesmo "tenho uma amiga nova...", "é tão linda, ai aqueles olhos", "ah...aquela barriguinha", "que rabinho tão bom" e por aí em diante…

É impressionante, ele é completamente doido por mulheres e estamos à vontade para contar-mos as nossas aventuras, confidenciar-mos loucuras sentimentais, receber-mos os conselhos e as verdades inevitáveis, a análise dos amores e desamores de cada um.

Antes de apanhar a boleia para o sul, passou pelo meu quarto, sentou-se na cama e acariciou-me o cabelo.

Há muito tempo que ninguém me fazia isso.

Tenho a mania que sou tão rija… a verdade é que não é permitido a qualquer pessoa me tocar, não sou daquele tipo de pessoas que anda aos abracinhos e aos beijinhos mas hoje de manhã, embora estivesse mais a dormir do que acordada e me custasse abrir os olhos cansados, apercebi-me que qualquer dia transformo-me numa pedra e eu não quero que isso me aconteça, não quero.

Temo o tempo cruel em que não há uma carícia diária ou mensal, temo a inexistência do amor persistente, tornar-me uma terra árida e desabitada.

Há quanto tempo não me passavam a mão pelo cabelo com dedos de amor?

Onde anda a magia que se esqueceu de mim?

Há cerca de um ano atrás aconteceu. Fera ferida quis ir devagarinho para não dar nenhum passo em falso e não acreditava no que lhe estava a acontecer. Era bom demais… tantas vezes havia imaginado mas julgava que não passaria disso, apenas mais um sonho daqueles que nem vale a pena nos prender-mos muito.

Com os seus pezinhos de lã lá foi ela, passinho a passinho para não se magoar e sempre a lembrar-se de que era uma presa. Quando deu por ela, tinha sido caçada e o seu predador devorou-a de tal forma que ainda hoje tem os ossos a descoberto. Ainda hoje se deixa lá ficar à espera que ele devore o resto, não se sente mal com isso, deixa o seu coração a descoberto porque nestas coisas do coração a gente não manda nem bater mais nem menos, nem bater nem não bater - o coração é que decide.

E que ninguém se sinta mal com o coração dos outros, que ninguém pense ter culpa por o seu bater a um ritmo diferente do outro, nisso também ninguém manda.

O meu amigo foi-se embora e o amor existe, o coração bate-bate e o amor não existe, no cabelo passa o pente e fiquei mais só do que estava.

E agora?

Macacos há muitos, ó palerma!!!


img - Sophie Thouvenin, smiley bois tendre





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quinta-feira, abril 15, 2004

(im)probabilidades 

Era assim:


era assim:

        queres?
        queres algo?
        queres desejar?
        desejas querer?
        desejas-me?
        desejas querer-me?
        queres desejar-me?
        queres querer-me?
        queres que te deseje?
        desejas que te queira?
        queres que te queira?


                   quanto me

queres?
                   quanto me

desejas?

        ah quanto te quero
             quando te quero
             quando me queres...




Ana Hatherly, um calculador de improbabilidades



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quarta-feira, abril 14, 2004

destruir para reconstruir 

Estamos em tempo de mudanças... acontecerão indubitavelmente e estão para breve, eu tenho a certeza disso. Entretanto, vou ter que bater várias vezes com os joelhos em calhaus, esfolar os pés e ficar à mercê das intempéries e dos bichos-maus, mas eu sei que vou chegar lá, eu sei!

Por agora existe um julgamento a decorrer e, mesmo antes da decisão, já me colocaram a forca. Cabe-me a mim, sabendo de antemão que nem enforcada nem nos próximos tempos morrerei, deixar passar os carrascos sem lhes dar a importância que reclamam.

"Subo a uma torre de escadas sinuosas, íngremes e onde a luz é escassa..."

Senti logo que existia algo oculto, havia um mistério na penumbra daquele alto forte que parecia deveras inquebrantável, tão robusto e definitivo como se jamais viesse a tremer. Quis então ir devagarinho, degrau a degrau, apenas tirar um pé do chão quando o outro estivesse seguro e lá consegui chegar ao cimo.

Infelizmente, ou felizmente, tombo - a torre desmorona-se e eu caio.

Depois de tanto esforço para chegar ao cume da fortaleza, tudo foi por água abaixo...mas, porque não achar que foi melhor assim e acreditar que mais sólida e clara será a torre se for reconstruída por mim e que essa sim, essa será a minha torre?!?..

De lá, a uma altura pouco habitual, será possível contemplar atentamente o céu que alberga a tal estrela especial que surge a cada um de nós em degraus diferentes - consequência inevitável da altura da torre e do terreno onde está implantada -, e que me iluminará o caminho. Sim, porque somos todos viajantes caminhando umas vezes na horizontal outras na vertical e disso ninguém duvida, pois não? Basta pois reconstruir e voltar a subir.

Eu espero, já disse que não tenho pressa... deixai primeiro passar os carrascos e secar as feridas, deixai-os pensar que me mataram, que já não existo... deixai sair a sentença e ser reconstruída a torre...


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Para ti,
 


(o), António Matias, olhares.com


"...recuou com ela até à borda da cama, sem nunca lhe largar a cintura nem a boca. Sentou-a na cama e ajoelhou-se a seus pés, só então interrompendo aquele beijo interminável. Colocou-lhe as mãos abertas sobre o peito dela, sem brusquidão nem pudor, como um menino que disfruta o seu brinquedo. Com uma mão desfez-lhe o laço da blusa e começou lentamente a abrir-lhe os botões. Matilde ainda não tinha aberto os olhos, não queria ver agora o seu peito de fora da camisa, as mãos dele que o exploravam pudicamente e depois o calor húmido da sua língua a lamber-lhe os bicos do peito. Estava nua, exposta, entregue."

Equador, M.SousaTavares



Sem pressas... Não me importa o tempo que necessitas para bater à porta, não me importa nada. Continuo aqui e quero lá saber do resto! Não me importa esperar por acrílicos, por descobrimentos e definições...desvenda lá esse lado oculto, essa tempestade, meu Neptuno.



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Acordar por si 

Sim...e depois? Qual é o mal de querer estar ou passar cinquenta horas semi-sozinha, satisfazendo apenas o mínimo que preciso e que sinto necessidade nesto momento?...

Não tenho direito à minha solidão? Estar sem preocupações durante um curto espaço de tempo?...

Acordar por mim, acordar num quarto escuro e sentir que esse espaço é só MEU? Achar-lhe a claridade pelos meus olhos?

Posso estar SÓ?

Decidir só amanhã de manhã, à tarde ou quando me apetecer? Negar qualquer tipo de compromisso e nem sequer estar preocupada em tomar qualquer decisão mal acorde???

Onde é que existe o verdadeiro significado da palavra liberdade se até me é proibido poder sentir paz com o sossego e com o alheamento de tudo que existe em redor?...

Foi por isso que passei horas em viagens complicadas e morosas. Foi em prol da MINHA PAZ mas ninguém aceita a paz dos outros!.. (entraremos nós em guerra connosco para satisfazer os outros?!?...)


Este é o curto e magnífico tempo em que a tranquilidade existe e é para estar comigo... Tranquila porque sozinha - imaginável e tolerante, verdade?

Quem é que pensa que pode vir transtornar o que peço?

Ainda não...ainda nunca.


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sexta-feira, abril 09, 2004

Eu vou, eu vou, vou para a praia, eu voo... 


" Os Pássaros ", Maximino Gomes


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Conquilhas e açordas 

Aqui vou eu, cheia de pica?!? Nã, não me parece...

Amanhã parto para as terras dos Algarves. Vou para a minha cidade passar férias, misturando-me com toda aquela gente que vai passar férias longe da sua cidade. Quando vivia lá escapava-me à confusão nestas alturas, agora sou como os outros.

A verdade é que eu não quero mesmo ir... vou contra a minha vontade. Mas sinto que não posso falhar. Vamos inaugurar o apartamento, como poderia eu não ir?!? Se tivesse dinheiro sabia muito bem onde o aplicar e ir nesta altura ao Algarve não seria um projecto de férias. Meter-me-ia no carro, sozinha e lá ia eu ter umas férias descansadinha. Não existiriam animais, conflitos familiares, horários...caramba, se era bom!!!

Infelizmente não há dinheiro para as minhas viagens simples, vou ter que me contentar com as férias a que tenho possibilidades neste momento.

A família está na labuta, esta é altura em que se trabalha mais e pouco tempo será passado com ela. Se queremos estar com eles terá de ser no meio da confusão infernal dos restaurantes, em que uma conversa em família será uma conversa familiar também com empregados, cozinheiros, clientes e fornecedores.

A outra parte da família contentar-se-á com um almocito que mais já é demais (pelo menos por mim).

Quando no post anterior comentaram que cada um é cada qual, refiro-me ao Dúvidas, acho que tem toda a razão, devemos aceitarmo-nos uns aos outros e relativamente à mana, como já disse, adoro-a e isso ultrapassa qualquer desagrado que eu sinta quanto à sua personalidade. Contudo, podemos aceitar mas sermos obrigados a conviver, isso é que não. Por exemplo, a pessoa que vive com o meu pai há pouco tempo, tem o "dom" de ter uma voz esganiçada que, aliado ao sotaque profundamente algarvio e presunção de ser muito boa e ajudar toda a gente, torna-se quase impossível de conviver. Não esquecendo o cão que come à mesa, os arrotos do filho a que todos acham muita piada e todo o tipo de boçalidades que eu nunca pensei ter de assistir na convivência familiar. Espreme-se e sai tão pouco sumo.

O melhor será esquecer isso tudo e aproveitar o sol (que não me parece andar por lá), as açordas e as conquilhas.

E aproveitando a ideia, cada um é como cada qual e não há escapatória possível, gostar de alguém é ultrapassar os seus defeitos e saber tolerar, compreender que a vida não está assim, A VIDA É ASSIM!


Aqui vou eu!... Boas férias!!!






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quarta-feira, abril 07, 2004

As manas 

- Por favor, jantar a ver futebol é que não!!! Põe lá no telejornal!...

- Não. Este jogo é importante.

- Qual é a tua? Jantar a ver futebol é que não...

- Este jogo é importante...

- Porquê? Para dizeres aos teus colegas que o viste? Tu não percebes nada de futebol, deixa-te de merdas. Nem és do Porto...

- Quem é que te disse?!?

- Mudaste de repente, foi?

- Não...

Gostava que a minha maninha fosse mais coerente. Apanha pessoas como eu que não estão com meias medidas... e muitas acabam por fazer malambarismo dela. Eu faço-o directamente na sua cara, os outros não. Era bom que gostasse mais de si pelo que é e não pelo que podem pensar sobre si!... Ter confiança em si própria, não ter vergonha de dizer que não conhece, não faz, não sabe, não gosta, gosta. Gostava que ela fosse forte como eu (nesse aspecto), que me estou bem a borrifar para o que os outros podem vir a pensar sobre mim. Sinto-me segura, não devo nem temo, ela não e, contudo, também não deve nada a ninguém.

A minha vontade era deixá-la no meio de uma capital europeia bem movimentada durante um mês: "agora desemerda-te!". Podia ser que ela voltasse com os 33 anos realmente tem.

Adoro-a, mas caramba...

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O original 


...nunca se desoriginalizou e nem nunca se desoriginalizará.



Fractured Realities, Ted Kuykendall

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terça-feira, abril 06, 2004

Ao senhor ladrão: 

Vós, que roubastes as terras do senhor
Sois agora senhor das terras
E descaradamente dizeis que tudo a vós pertence

Senhor ladrão
Faço-vos um ultimato:

Entregai ao justo guardião
A foice, o arado e a terra
(não sejais ganacioso nem velhaco...)

Em breve emergirá a verdade
(despachai-vos)

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(Por)menores 

"Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso.

Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração...

Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital.

Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que nunca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta."


Aldous Huxley

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segunda-feira, abril 05, 2004

É fácil falar, dizemos.
 



Untitled Self-Portrait #63, Anne Arden McDonald


DO AMOROSO ESQUECIMENTO

Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


Mário Quintana


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Onde é que está o erro?!? 

Não sei a razão de alguns posts continuarem a bold... Onde é que está o erro???? Se eu não defini assim... que raiva. Só compilico!

Só para dar um exemplo, a semana passada julguei ter um vírus no pc. Vá de organizar toda a "tralha": gravar a música, os filmes... Organizei quase tudo, mas era impossível formatar o disco em casa pois não tinha como armazenar os ficheiro que não queria passar para cd... e isso são muitos gigas. Lá me tive que mentalizar que o tinha de levar à loja. Primeiro ainda saquei uma série de aplicações para remover os possíveis vírus. Só podia ser um vírus malandro, porque eu não conseguia visulaizar correctamente as páginas. Que chatice, dizia eu. Quando fui a ver, era tão simples: era o código!!! Sou tão burra!!! Como é possível eu ter estudado informática?!?

Pare dizer a verdade, e tentando-me desculpar, a memória falha-me tantas vezes... Além disso, há muito tempo que não dou formação... Sim, desculpas!!! Tenho mesmo mesmo mesmo que começar a trabalhar.

Tá difícil. Hoje fui falar novamente com a "sra. delegada" e ela voltou novamente a adiar a resposta. Tenho que me mexer por outro lado. Não há dinheiro, ocupação, a prática está-se a perder, não me sinto muito útil (nada).

Vou mas é buscar o endereço das empresas. Amanhã tenho que ir de porta em porta oferecer o meu trabalho. Depois, esperar. Desesperar.

Porque é que eu não quero viver em Lisboa? Ofereceram-me emprego na minha área, com um ordenado razoável e eu não aceitei. É muita confusão para a minha cabecita. Para onde iria a minha vida pacata e tranquila? Tá certo, oportunidades não iriam faltar para fazer aquilo que gosto, isso é a grande vantagem de se viver numa cidade como Lisboa. E as desvantagens...valeria a pena? Eu quero é viver no campo!!! No meio das cabras, dos passaritos e sentir cheirinhos da primavera a inundarem a casa logo de manhanzinha ao abrir a janela... Isso é que eu quero.

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não tou a atingir...

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Asneira atrás de asneira 

Isto está muito mal. Não estou a gostar do resultado. Nada. Acho que cada vez está pior.
Daqui a bocado já se vê... Para quê que me meto a tentar arranjar as coisas? Em vez de simplificar só faço asneiras, ai, ai!!!!

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domingo, abril 04, 2004

Carta aos Mortos 

Amigos, nada mudou
em essência.

Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestasse perderam
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,.
Korobow Vadim "Where is the true?"

mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração, insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.


Affonso Romano de Sant'Anna


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in verso
Se me tirassem a máscara
os olhos, a pele, os cabelos
amariam o meu avesso?


Num mundo de cegos
há menos questões e enganos.



Sara Fazib



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Não te deixes atrasar, ó caracol!!! 

Cada um tem o seu ritmo... lá isso é verdade.
Este "tomara" é dedicado ao caracol que ainda tá para nascer.


TOMARA

Tomara, que você volte depressa,
    Que você não se despeça
        Nunca mais do meu carinho.

E chore, se arrependa e pense muito
    Que é melhor se sofrer junto
        Que viver feliz sozinho.

Tomara, que a tristeza lhe convença
    Que a saudade não compensa,
        E que a ausência não dá paz.

E o verdadeiro amor de quem se ama
    Tece a mesma antiga trama
        Que não se desfaz.

E a coisa mais divina
    Que há no mundo
        É viver cada segundo como nunca mais.


Toquinho e Vinicius de Morais

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sábado, abril 03, 2004

Dentro de mim suavemente como o sol...


 


Fronteras, María Cecilia Tagle


Vem

Entra dentro de mim
suavemente
tal como o sol
entra p'la madrugada
de um dia soalheiro
morno quente


Julieta Lima



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sexta-feira, abril 02, 2004

Fim-de-semana "maravilha"
 

Chove. Chove muito. Vai ser um daqueles fins-de-semana em que é maravilhoso ficar em casa a ouvir o barulhinho das gotas que caem sobre as chapas e telhas, no quentinho da lareira. Compram-se três maços de tabaco e não é preciso mais nada. Eu sei que gosto de passar fins-de-semana assim. Normalmente nem me importo, e se bem acompanhada, e até costumo dizer que faz bem passar fins-de-semana na cama. Este não vai ser um desses. Várias propostas me surgiram, o InterCéltico, as Tasquinhas…mas o mais aceitável (e responsável) é passar este a arrumar a casa.

Na 2ª feira virá começar a trabalhar cá em casa uma senhora e seria de muito mau gosto ela encontrar tamanha desarrumação, posso afirmar até que a minha casa é um caos. È uma casa velha, melhor antiga (250 anos), pouco prática, espaçosa mas sem grandes móveis para arrumar, com três animais dentro… e com uma gaja como eu que nunca alinhei em colocar nos lugares certos as coisas que vou usando. Adoro cozinhar mas não lavar a louça, tiro a roupa do armário mas se não me satisfaz, não a volto a guardar, pouso-a na cadeira. É papéis por todo o lado, tenho o hábito de ir guardando porcarias, aliás, trago para casa coisas que penso vir a ser úteis e acabo por nunca as ler e não deitar fora porque penso que amanhã as leio. É um grande problema, vão-se acumulando inutilidades aos montes e às serras.

Chego à conclusão que preciso que me orientem, sozinha não sou capaz. Estou muito mal habituada. Desde sempre tive empregada, lembro-me de desarrumar o quarto todo, ir à sala por 5 minutos e voltar encontrando-o todo limpinho. Fui muuuito mal habituada e agora? Devo ser responsável, portar-me como uma mulher… Mas o que é isso??? Gosto de ser como sou, não me aflige ter a casa desta forma, não me confunde aquilo a que os outros chamam de desorganização. Sei sempre onde está aquilo que procuro e quando não sei acabo por descobrir passado pouco tempo. Bem, a verdade é que de vez em quando, quando me passo, vai tudo pró lixo, mas passo-me muito poucas vezes. Vou até ao meu limite. A questão aqui é que o meu limite não é o limite de quem vive comigo e isso constantemente gera conflitos. O respeitinho pelo que também é dos outros, não é? Pois é!...

E com os filhos, como vai ser? Já decidi, vou ensiná-los a lavar louça, fazer camas, etc. Lembro-me de ser pequenina e gostar de fazer isso tudo, acho que com eles será a mesma coisa. Não me posso é descuidar, há que relembrá-los das tarefas diárias para que não saiam iguais à mãe mas, pelo contrário, que a ajudem. Pode ser que eles me eduquem… Estou a brincar, obviamente, porque terei que dar o exemplo para eles o seguirem, mas se eles gostarem de lavar a louça, não vou insistir…

Por agora não vale a pena pensar numa situação que não se vê encaixada num futuro próximo. Será melhor resolver o destino a dar ao papel do crunch, à chaleira, às cartas, às canetas, aos cds e às caixas vazias, aos postais, aos maços de tabaco vazios, aos porta-chaves, aos blocos de notas, à caixa das pílulas, aos cartões para filtros, aos lenços de papel, às pilhas, às cassetes, às garrafas de água… tou lixada!!!!!!!!!!! Apetece-me deitar fogo a tudo mas nem isso seria eficaz porque os bombeiros aqui da frente dariam logo com o fumo e viriam apagar o fogo. Não há escapatória.


img: In/Visible Cosmos - One Sun, One Apple, One Day, Susannah Hays


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CONSELHO



Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.





Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.




Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...



Fernando Pessoa

img - Planted, Gambel Oak, Laurie Tumer



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quinta-feira, abril 01, 2004

Dédalo 

A LENDA DE DÉDALO


A Lenda de Dédalo começa com o significado do seu próprio nome que significa em grego engenhoso, hábil ou criador. Dédalo era precisamente tudo isso, notabilizou-se desde novo na arquitectura, nas artes, na engenharia, sendo protegido dos povos e reis que o acolhiam com acarinho e admiração pela sua capacidade inata de ajudar todos os que recorriam a si, resolvendo os mais difíceis problemas ou tarefas demonstrando um engenho ímpar.

Dédalo era um homem diferente dos outros. Tinha ideias fantásticas. Quando havia um problema complicado para resolver ele pensava, pensava, acabando por descobrir uma solução que a todos parecia única e evidente.

As pessoas, admiradas, exclamavam:
- Como é que nunca ninguém se lembrou disto?
Afinal era tão simples!

Foi por isso que o rei Minos, senhor da ilha de Creta, resolveu chamá-lo para lhe encomendar um serviço especial.

A rainha Pasifae, sua mulher, tinha-se apaixonado perdidamente por um touro. Desses amores nasceu um pequeno monstro, que era homem da cintura para baixo e touro da cintura para cima. Deram-lhe o nome de Minotauro.

Provavelmente o rei Minos teria gostado de o matar e esquecer o assunto; mas não teve coragem. Vendo bem, aquele monstro era seu enteado. Que fazer? Pareceu-lhe que o ideal seria encerrá-lo numa prisão de onde fosse impossível escapar. Assim deixava-o ficar no reino, alimentava-o, mas não teria que suportar a sua presença. Chamou então o famoso Dédalo e pediu-lhe que imaginasse uma tal prisão.

Dédalo não era homem para se encantar com soluções fáceis do género "paredes grossas e grades nas janelas". Concebeu um labirinto, ou seja, um mundo de caminhos que se cruzavam e entrecruzavam, de modo que quem lá entrasse nunca mais saía.

O Minotauro foi encerrado no labirinto. Mas alimentá-lo é que não era nada fácil, posto que exigia carne humana. Decidido a não sacrificar os súbditos aos apetites do enteado, o rei exigiu à cidade de Atenas um tributo pavoroso: de nove em nove anos, tinham que enviar sete raparigas e sete rapazes para saciar o Minotauro. Caso falhassem, invadia e destruía a cidade a cidade de Atenas.

De nove em nove anos os atenienses juntavam-se no porto para verem embarcar os catorze jovens condenados à morte. Choravam de tristeza e no mastro hasteavam uma vela preta, em sinal de luto.

Certo dia, entre os rapazes escolhidos partiu o filho do rei de Atenas, que era belo como o Sol. Chamava-se Teseu. Teseu jurara ao pai, em grande segredo, que havia de matar o monstro devorador de gente...

E a sorte sorriu-lhe porque, quando as vítimas desfilavam perante os habitantes de Creta, a filha do rei, Ariadna, apaixonou-se por ele. Desesperada, procurou Dédalo e pediu-lhe por tudo que o salvasse. Mais uma vez o arquitecto encontrou uma solução tão simples que Ariadna não resistiu a comentar:

- Como é que nunca ninguém se lembrou disso?

De facto o instrumento que permitia fugir do labirinto não tinha nada de misterioso. Era um simples novelo. Teseu devia atar uma ponta à entrada e ir desenrolando o fio pelo caminho. Quando quisesse voltar para trás, já não se perderia.

O rapaz assim fez. Seguro de que não ficaria para sempre naqueles caminhos cruzados, foi em busca do Minotauro.

A sorte sorriu-lhe! O monstro estava a dormir. Teseu matou-o, salvou os companheiros, saiu do labirinto e, levando consigo Ariadna, embarcou para Atenas.

Claro que Minos ficou furioso. Quem poderia ter ensinado os atenienses a escapar do labirinto? Só Dédalo, o arquitecto. Para o castigar, atirou-o lá para dentro, juntamente com o seu filho, Ícaro. Este, aflitíssimo, reclamou:

- E agora? Ficamos aqui enfiados nesta prisão que teve a triste ideia de inventar?

Dédalo sorriu.

- Não. O rei decerto mandou vigiar as saídas que dão para o mar e para a terra. Mas o ar e o céu estão livres. Vou construir umas asas para mim e outras para ti. Escaparemos voando.


O rapaz ficou delirante. Voar? Que maravilha! Sem qualquer dificuldade, executaram o plano.

Antes de partirem, o pai preveniu:

- Tem cuidado, Ícaro. Não voes alto de mais!

- Porquê?

- Porque as asas estão coladas com cera. Se te aproximares muito do Sol, o calor derrete a cera e as asas soltam - se.

Ele concordou e lá foram. Mas a sensação de voar era tão estonteante que Ícaro depressa esqueceu as recomendações e subiu... subiu... subiu...

Tal como Dédalo previra, a cera derreteu. Pobre Ícaro! Caíu ao mar e morreu afogado.

Desgostoso o pai seguiu para outra ilha do Mediterrâneo, a Sicília, onde foi muito bem acolhido pelo rei.

Minos perdeu - lhe o rasto mas não desistiu da vingança. Sabendo que ele não resistiria a um desafio que pusesse à prova a sua inteligência, arranjou um estratagema para o localizar. Anunciou que daria grande recompensa a quem conseguisse passar um fio por dentro de um búzio. Dédalo resolveu a questão. Fez um pequeno orifício no búzio, atou o fio a uma formiga e introduziu-a lá dentro com muito cuidado. Depois tapou a entrada.

A formiga percorreu a espiral do interior do búzio no seu passinho vagaroso e paciente, e saíu pelo outro lado, arrastando a linha minúscula.

Orgulhoso, o rei de Sicília anunciou que o problema fora resolvido.

Minos avançou então para lá com os seus exércitos para exigir que lhe entregassem o malfadado arquitecto. Mas o rei da Sicília recusou. Houve guerra, a luta foi terrível e Minos pagou cara a sede de vingança, porque morreu no campo de batalha.

Dédalo continuou a viver na Sicília, rodeado de admiração.


img - Levitation, Keith Carter

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Alone, Wojciech Jastrzebski



PREPARAÇÃO PARA A MORTE

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.


Manuel Bandeira


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