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sábado, julho 31, 2004

Partir com o vento 

Nunca se pode concordar em rastejar, quando se sente ímpeto de voar...
Helen Keller

Christophe Rihet


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Em busca do céu perdido 

Cynthia Tom, Hasten the Journey Traveled
Encontro-me sozinha, mesmo sozinha. E indecisa.
Tenho cerca de 30 minutos para decidir se saio ou não. Se sair, tenho uma excelente noite de copos e dança, de riso e muito dinheiro ou mal ou bem gasto... Se não sair, fumo uma como há muito não fumo, dou mais umas voltas pela net e deito-me no sofá para adormecer ao som das baladas de um programa de merda qualquer...

Doem-me as pernas, passei o dia com a cabeça a estalar, incomodamente e só de um dos lados; recebi o ordenado mas decidi que o pouparei ao máximo e só o usarei para o que for mais necessário; por outro lado, faz muito tempo que não danço meia atordoada com o alcóol, que não me sinto a ser comida com os olhos, que não me arranjo toda "pipi" e vou para a "noite"...

Antes, eu era uma notívaga, sempre airada, pronta para a pândega e ninguém me parava. Saía todos os fins-de-semana, 6ªs e Sábados e a "vida artística" dos prazeres da noite era uma constante. Foi também durante todo esse tempo que eu comecei a amar o nascer-do-sol e aquele fresquinho da manhã - chegar a casa mais lúcida do que horas antes, e essa lucidez parecer a mais consciente de todas - confirmava-se de que é maravilhoso ter aproveitado a noite e, logicamente, a vida que eu gostava e para a qual existia uma energia inesgotável e duradora.

Ninguém me parava e hoje, tão nova que sou ainda, sou eu quem não quer ir para essas andanças de gato pardo ou de espampanante diversão.

Que raio, o que eu queria era outra coisa!.. ups, não há e o melhor caminho é acreditar que aproveitarei, em breve e na praia, o meu dia de descanso; que enquanto estou em casa não estrago o fígado ou esvazio a carteira; que podería rir muito, mas provavelmente nem tanto porque não acho graça a tudo; que poderia ser comida com os olhos, mas que gajos daqueles não me interessam para nada; que poderia-me por toda bonita mas aborrece-me ir pró banho... e, blá-blá-blá.

Será treta esta conversa toda? Será a tal preguiça que me consome, o cansaço ou a harmonia por estar de volta ao meu aconchego? Por que é que seguirei por um atalho?

Meter-me-hei em atilhos?

Está decidido, que me engula... o sofá!


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sexta-feira, julho 30, 2004

Tá mas é caladinha!... 

Quando se convive com muitas mulheres, e quando elas começam com as intrigazinhas, nada melhor do que oferecer-lhes um minuto de "Sabedoria Socrática":

La pregària dels pretendents, GiottoNa Grecia Antiga, um conhecido do grande filósofo Sócrates aproximou-se dele e disse:

- "Sócrates, sabes o que eu acabei de ouvir acerca de um amigo teu?"

- "Espera um minuto!", respondeu Sócrates, "Antes que me digas alguma coisa, gostaria de te fazer um teste. Chama-se o "Teste do Filtro Triplo."

- "Filtro Triplo?"

- "Sim!", continuou Sócrates, "Antes que me fales do meu amigo talvez fosse uma boa ideia parar um momento e filtrar aquilo que vais dizer. Por isso e que eu lhe chamei o Filtro Triplo ."

E continuou: "O primeiro filtro é VERDADE. Tens a certeza absoluta de que aquilo que me vais dizer é perfeitamente verdadeiro?"

- "Não," disse o homem "o que acontece é que eu ouvi dizer que..."

- "Então," diz Sócrates," nao sabes se é verdade. Passemos ao segundo filtro, que e BONDADE. O que me vais dizer sobre o meu amigo e bom?"

- "Não, muito pelo contrário..."

- "Então," continuou Sócrates "queres dizer-me algo mau sobre ele e ainda por cima nem sabes se é ou nao verdadeiro. Mas, bem, pode ser que ainda passes o terceiro filtro. O último filtro é UTILIDADE. O que me vais dizer sobre o meu amigo será útil para mim?

- "Não, acho que não..."

- "Bem," concluiu Sócrates, "se o que me dirás não é nem bom, nem útil e muito menos sabes se é verdadeiro, para que queres dizeres-me?"

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quinta-feira, julho 29, 2004

Karma à chuva 

Maggie Taylor, Small Storm
Eu, que sou tão desarrumada que a minha roupa está a monte, como se fosse uma bancada da feira, levo o dia a dobrar, desarrumar para ter que fazer e voltar a dobrá-la.

...que sempre gozei com que dizia ter enxaquecas, ando cheia de dores de cabeça e disseram que poderiam ser enxaquecas.

...que sempre gozei com uma amiga por ter ido tirar o tampão ao hospital, fui uma vez tirar um ao centro de saúde de uma pequeníssima vila.

...que tenho a mania que sou difícil de resistir, já levei um grande corte.

...que tenho 90% dos amigos no género masculino, convivo bastantes horas, diariamente, com 90% de gajas.

...que só queria amor verdadeiro, vivo iludida porque quero.

...que tenho trazido animais para casa, hoje vivo quase num zoológico e que manda são eles.

Eu...só queria umas massagenzinhas e uns miminhos, num sítio calmo; comia fruta todo o dia, andava sem indumentária e ao meu lado bastava a companhia de um, "daquele" cabrito enquanto ouvíamos, unicamente, os passarinhos. Para refrescar ou tomar banho íamos ao mar e adaptavamo-nos ao horário do sol... Ok, levávamos também umas garrafas de tinto, uns maços de tabaco e um pc com ligação à net…mas não era necessário mais nada, só paz e sossego. Era tããããããããããão bom!!!!!

Tudo se paga nesta vida... Até há quem acredite que se paga pelas outras vidas. Será este o meu karma??? Na, não acredito! O que se passa não sei bem, mas há-de passar (talvez quando eu descubra o que se passa)!


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quarta-feira, julho 28, 2004

O Único Mistério do Universo 



Sean Hopp, Exist

O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.


Alberto Caeiro

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(des) Aprender 

Sean Hopp, Mama
Eu vou ceder aos vossos apelos e contar aquilo que me quiseram ensinar durante estes dias. Como vão poder perceber, era bem melhor ficar caladinha e não expôr esta decadência mas, já que insistiram tanto, gostaria que me ajudassem a compreender se, perante estas aulinhas devo chumbar ou não o doutor...

1º Quando somos importantes, quando comportamos um título escrito por extenso, todas as pessoas que conhecemos rodeiam-nos por interesse;

2º Após mais de um ano de enamoramento, a relação pode-se tornar liberal e cada um ter os pares que entender;

3º Quando não se assume nada e se é franco, é permitido fazer-se tudo, pois nunca se andou a iludir ninguém e "só se ilude quem quer";

4º Quando se tem 35 anos, um mês de pseudo-namoro é suficiente para se pedir um filho a alguém;

5º Existem, naturalmente, relações hexagonais, ou seja, relações entre 6 pessoas nas quais podem-se ir trocando parceiros, basta para isso, avisar antes;

6º Quando um homem tem uma relação, não deve apresentar e fazer-se acompanhar pela parceira em jantares com mulheres para que elas não percam o interesse;

7º Numa relação, ou há amor ou há interesse; no caso de alguém sentir amor, então é porque está a gozar com o outro.

8º A melhor maneira de evitar conversas sérias é dizer "não me maces!";

9º Deve-se levar a vida à nossa maneira, sem necessidade de cedências ou tolerâncias porque quando há uma legião de fãs não se deve perder tempo com coisas sérias;

10º Como para bom entendedor meia palavra basta, não vale a pena gastar muito latim porque quem não percebeu, tivesse percebido;

11º Quando estamos envolvidos com alguém e o nosso amigo, sem saber dessa relação, nos pede opinião sobre uma possível aproximação ao nosso parceiro, deve-se-lhe dar força.


E então? Foi tão bom para vocês como foi para mim???

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terça-feira, julho 27, 2004

Voluntária impenetrabilidade 

Jan Saudek
Este foi um fim-de-semana muito construtivo!
Infelizmente, devido a causas ainda mal definidas quanto à sua lógica, não me será possível transmitir com a veracidade desejada os factos quase inacreditáveis em que me vi envolvida nestes dias.
Lamento informar que existem bastantes probabilidades de nunca vir a compreendê-los e, embora de uma forma que me satisfaz bastante como pessoa integra e capaz de sentir e entender a vida de uma forma natural, excluo-me de qualquer aproximação futura a semelhantes actos.
Devido à minha voluntária impenetrabilidade em tais "modus vivendus", recorro a um cigarrinho para desanuviar e contento-me com a confirmação de que não se usa um cachecol no Verão nem se leva areia para a praia ou se anda de sandálias na neve...

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sexta-feira, julho 23, 2004

(In) Competências 

Pascal Renoux, Anne-Lise et le lys 2
Parto, novamente, e na mala carrego a esperança. É sempre assim, sempre as mesmas expectativas... Idealizo, construo grandes castelos donde me vejo donzela, princesa à espera daquele beijo e do tal príncipe que jurará amor eterno...
Sou mesmo parva!!! Isso já não existe (será que alguma vez existiu?) e por mais voltas que se lhe dê, a sorte é só para alguns... Ou talvez não, pelo menos é o que diz a música... competência para amar? Será que é isso que me falta??? É preciso ser-se esperto e arranjar as melhores técnicas, calcular e arranjar estratégias para que o enamoramento dê certo? Não devia o amor acontecer, ser tão natural como a nossa sede?...


Vieste comigo
nesse jeito pós-moderno
de não querer saber nada
de não fazer perguntas
essa pose cansada
tão despida de emoção
de quem já viu tudo
e tudo é uma imensa
repetição

não fosse a minha competência para amar
e nunca teriamos acontecido
num mundo de competências
e técnicas de ponta
a dádiva da fala
quase já não conta

depois quase ias embora
desse modo
evanescente
não soubesse eu ver-te
tão transparente
e teria sido apenas
o encontro acidental
uma simples vertigem
dum desporto radical

não fosse a minha competência para amar
e nunca teriamos acontecido
num mundo de competências
e técnicas de ponta
a dádiva da fala
quase já não conta


Clã, Competência para Amar

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Paredes 

A música que faço é um produto das circunstâncias imediatas do tempo em que eu vivo, e passará a ser encarada de outra forma quando essas circunstâncias desaparecerem. É uma coisa que, se perdurar graças aos discos, ficará apenas com o valor de documento, como acontece com toda a pequena música, desde os Beatles ao Manuel Freire. E já ficarei muito orgulhoso se, daqui a muitos anos, puder ser entendido como um compositor que se integrava bem nos acontecimentos desta época...
Carlos Paredes
 

A palavra por dentro da guitarra
a guitarra por dentro da palavra.
Ou talvez esta mão que se desgarra
(com garra com garra)
esta mão que nos busca e nos agarra
e nos rasga e nos lavra
com seu fio de mágoa e cimitarra.

Asa e navalha. E campo de Batalha.
E nau charrua e praça e rua.
(E também lua e também lua).
Pode ser fogo pode ser vento
(ou só lamento ou só lamento).

Esta mão de meseta
voltada para o mar
esta garra por dentro da tristeza.
Ei-la a voar ei-la a subir
ei-la a voltar de Alcácer Quibir.

Ó mão cigarra
mão cigana
guitarra guitarra
lusitana.

Manuel Alegre, A Guitarra



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quinta-feira, julho 22, 2004

Vamos fugir? 

Ando eu nestas andanças caseiras a pensar no melhor destino a dar aos meus dois dias seguidos de folga. Os próximos Domingo e Segunda-Feira serão dias de descanso, quer dizer, dias de desanuviar das peneirices Máximo-Duttianas, que descansar o corpinho é coisa que não tenciono fazer!

Irei bem acompanhada e tentarei não dar a comer peixe grelhado...
 
Entretanto, matuto e matuto e não chego lá! Falta-me um destino, algo de diferente, nem muito longe nem muito perto, aqui pela zona centro... Ah, e bem pertinho da praia, tá claro!

Alguém sugere algo, Ambrósios?
 
Jordin Isip, The Narrow Path

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quarta-feira, julho 21, 2004

Fica-lhe muito bem... 

Dou por mim num mundo de fantasia, de vaidade desmesurada, de consumismo banalizado e continuo a sorrir, a fazer-me de parva e a ser simpática.
Aquelas cabras todas, tão perfeitas por fora mas tão ocas por dentro, pedem-me uma opinião. Quanto mais cabras mais gozadas, penso eu. Não se apercebem da figura ridícula e, como estão completamente cegas pelo poder, qualquer espelho lhes confere uma imagem de Cláudia Shiffer ou de princesa Diana…
Aparecem com as suas carteiras cor-de-rosa choque, as suas argolas para periquitos… Ai, que aves raras, que saladas de fruta ácida!...
Mas que se lixe, cada um veste-se como quer (e quem sou eu, que também tenho gostos peculiares, para criticar?), e gostos não se devem criticar…se bem que às vezes não dá para passarem despercebidos! A única coisa que me dá a volta à tripa é a sua altivez, a arrogância, principalmente das mais velhinhas, que julgam que o dinheiro é tudo e que têm a mania que são boas como o milho… "Ó menina, de que está à espera? Vá lá buscar a saia!" ou "Traga-me uns papéis para colocar aqui, porque não gosto de ter os pés em contacto com o chão!". Porra!!! Para quê tanta futilidade??? Tanta cagança para quê???
Tenho pena que existam pessoas assim, pessoas que já nem sabem qual o cheiro do seu suor, que não sentem na planta dos pés as diferentes texturas que se pisam… Pena por terem tanto dinheiro mas não terem educação, pena por passarem tantas horas para ficarem bonitas e não terem tempo para os filhos, para lhes limpar a merda das fraldas que as amas limpam, pena por se acharem tão jeitosas e serem encornadas, pena por não saberem que uma sandes na praia também sabe muito bem e que beber um tinto da casa ao som de uma guitarrada, dançar sem medo de nos despentearmos, e por aí em diante, é viver a sério! Porra, estas pessoas entristecem-me… Mas, já que tenho que lidar com elas, então vou tirar partido disso: "Claro, essa saia fica-lhe muuuito bem!... Que tal combinar com esta blusa?"

Sean Hopp

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terça-feira, julho 20, 2004

Um peixe na barriguinha 



- Domingo tenho folga. Queres vir acampar comigo no Sábado? Grelhavamos um peixinho e fazíamos um filho...
- Um filho, ainda vá que não vá... Agora, um peixinho?!?...

Acho que assustei o rapaz!... Descartou-se logo a dizer que tinha um jantar nesse dia...

É óbvio que eu estava a brincar, podíamos perfeitamente comer gambas al guillo, não era preciso ficar indisposto!!!



Sean Hope,Burden of Truth

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4 grãos de areia na prateleira 

Que dia tão bonito! Acordar ao meio-dia, puxar o cortinado e deixar entrar o sol quente e luz, a luz!!!!
Meus amigos, hoje vou andar descalça, livre de qualquer atilho têxtil, fumar uns dez cigarros à tarde, correr uns metros, dizer umas asneiradas bem alto, andar com a gadelha despenteada e mandar uns mergulhos... Permitam-me dizer que este é o MELHOR DIA DA SEMANA, carago!!!


Deborah Barth

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segunda-feira, julho 19, 2004

Abdicação 


Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho... eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa


Martina Hoogland Ivanow

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domingo, julho 18, 2004

De olhos vendados 

- Não me leves a mal por querer dormir contigo…
- És tão estúpido. Porque não estás já a caminho???
E ele veio, chegou mais veloz que o vento e ela, que nem um papagaio de papel, permitiu mais um voo no limiar das sensações voluptuosas e carnalmente ímpares.
A porta estava aberta e lá dentro, cinco velas mostrando o caminho. Uma casa vazia e escura, um quarto sombrio, uma cama aberta com cinco almofadas fofas, frescas e, deitada nua sobre a terra branca e fértil, com os seus olhos vendados, Vénus, a princesa do amor.
Toda ela tremia, o seu corpo estremecia e a alma vagueava no escuro, tacteando com a imaginação todos os recantos daquele corpo masculino, rijo e quente. Lentamente, foi rodeando-a, foi-se aproximando, foi-se despojando de qualquer barreira de linho, pinho ou seda, enquanto ela permanecia intacta, virgem, imaculadamente à sua espera.
O silêncio era apenas corrompido pela respiração cada vez mais ofegante dos dois seres em louco desejo e, no ar, com os cheiros primitivos de calafrios, a febre de um Sábado que nunca mais chegava … Ai, o ambiente já existia, era real e garrido, e o mistério fez dos poucos passos entre os dois a mais longa e penosa e excitante distância!..
Meu Deus, como ela sabe tão bem que ele não chegou pelo seu próprio pé, como sabe tão bem que afinal zarpou, sem pressas, por um rio de seiva...e que guiado pela bússola da mútua atracção animal, fê-la sentir o seu sólido e potente arpão a roçar cada centímetro de pele, e cada percurso foi celestial, e cada pequena aldeia transformou-se num mundo em que tudo é possível.
E a musa continuava de olhos vendados…e assim se deixou ficar, cinco vezes no infinito, imersa na grande luz do prazer…

*Shelby Koning, Love is Blind

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sábado, julho 17, 2004

Cacos de azul 

Disseram-me hoje que escrevo melhor quando estou triste… Então, hoje as palavras vão maravilhar-vos…

Não conseguia imaginar, nem sequer se importava em querer saber como eu estava - se viva ou morta, se feliz ou triste… Alheio permaneceu durante tempo suficiente para que o meu mundo se transformasse e eu me adaptasse.
Passaram os dias, criaram-se oportunidades e durante este tempo todo, deitada de ouvido no chão, nem um sinal… Ofereceu-me um vazio que me fartou lentamente e, sem mais nobreza que a de nome, sugeriu o fim.
Como tudo é claro, agora que definiu as cores com que se pinta, o meu amigo colorido, agora que já eu tinha desistido de continuar à espera do azul dos seus olhos… Entretanto, do negro molhado dos meus, fui criando uma palete porque também preciso de cor na minha vida.
De repente, como se há meio minuto atrás estivesse sentado ao meu lado, surge-me com um convite irrecusável e, contudo, recusei-o. Só eu sei o que me custou dizer não, negar uma proposta para percorrermos juntos parte do mundo e, aliados, partilhar aventuras sob um outro azul…
Que cruel que ele é, o meu amigo colorido. Sentir-se-á, porventura, satisfeito?...
Eu sei que vou vacilar e, se após o tempo triste e nutrido de silêncio me encontrava já a refazer o puzzle vermelho que bombeia a minha vida, agora sou de novo cacos em esperança...
Não ouvi mais nada, não demonstrou sequer a vontade de se meter num atalho para me vir dar um beijo hoje, ou amanhã, ou depois… e quer ele percorrer o quê comigo???
Sem mais de momento, lamento o meu amor e, incondicionalmente, seguirei com ele em frente…

Jarle Hrafn Grindhaug,Hearts for Sale

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sexta-feira, julho 16, 2004

Trabalhar faz mal aos pés 

Assim foi o meu primeiro dia... Tenho muuuitas dores nos pés e nas costas. Apesar disso, correu muito bem. Os meus colegas são todos bonitos e bonitas, nacos e boazudas. São simpáticos, mas quase todos exageradamente vaidosos.
Passei 5 horas em pé, a dobrar roupa...vou chorar. Dobro tudo mal porque não sei: para mim, roupa dobra-se de qualquer maneira e eu nem digo a ninguém como está a minha cá em casa. Como me vou fartar de arrumá-la na loja, JAMAIS quero pensar em arrumar a minha... "Nas prateleiras ficam 4 blusas; na mesa, 6. As calças, por ordem crescente e sempre 4." Vou dar em doida!!!!
Hoje foi o primeiro dia e acredito que tudo vai melhorar, vou habituar-me por, pelo menos, 3 meses. Tenho a impressão que não quero mais, hei-de arranjar outra merda qualquer onde possa andar de ténis e não ganhar varizes enquanto perco inteligência.
Sou mesmo parva, sei línguas e informática mas a ideia de trabalhar num escritório também não me anima... Ser formadora e esperar pelos papéis do IEFP, esperar, esperar, desesperar, leva-me a ter que mexer por qualquer coisa... Pronto, eu gosto pouco de trabalhar, ou então, ainda não encontrei o que realmente gosto de fazer. Enquanto não me decido, e enquanto não começo e termino o curso, tenho que me habituar e ter fé em que vai tudo correr bem!
Entretanto, paga-se bem a quem se prontificar a me fazer umas massagens nos meus pezinhos queridos e a quem telefonar para a loja ameaçando uma bomba, nesta altura de promoções e durante a hora de almoço!...

Jan Saudek, Pieta

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quinta-feira, julho 15, 2004

Finalmente!!! 


Angela Berlinde
Esta é a imagem mais adequada à minha nova situação de vida: arranjei trabalho, caraças!!!!!!

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Um piropo com classe 

No Sábado passado, recebi o melhor piropo da minha vida...
Infelizmente, com as cabecitas dos homens dos tempos modernos, já não me é normal ouvir tamanhos elogios. Estou mais habituada a uns assobios estridentes, ou "hummmm", ou àqueles olhares animalescos enquanto palitam os dentes...
A verdade é que eu sei que ía bonitinha: de vestido branco, um pouco largo mas bem definido, sapatos com um salto baixinho, bejes (mais ou menos da cor da minha pele) e um colar também muito simples, beje e trabalhado, que comprei em Marrocos.
Seguia a pé, sozinha, por volta das 20h e dirigia-me para um jantar de amigos.
Na Avenida Emídio Navarro, poucas pessoas passeavam e, apoiados no carro e a conversar em pé, estavam dois rapazes que, ao verem-me aproximar e ao passar por eles, começou um a cantarolar "Olha, que coisa mais linda...", e o outro "...mais cheia de graça...". ADOREI!!!! Foi ESPECTACULAR!!!! Assim, SIM!!!!
Será que mais alguma vez na vida me encantarei com um piropo deste género? É que piropos é sempre bom ouvir, sabe bem ser-nos confirmado que somos atraentes, etc e tal, mas galarem-me desta forma discreta e tão cavalheiresca é que, com uma enorme tristeza, desconfio mais alguma vez me deslumbrar...
Quero mais...

Lida Chaulet, Butterfly Dress

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quarta-feira, julho 14, 2004

Filha de um adeus menor 


Cile, Child of the Corn

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Viagens sem fim 


Carol Watson, Starting Over...

Regressar a casa... De semblante triste, coração despovoado e com mãos presas a uma roda que gira para onde não quero, regresso sem vontade a uma casa, a uma terra e a uma rotina vazias.
As lágrimas descem pelo rosto, confirmando a dor de deixar para trás, de perder de vista as vistas da puta daquela cidade que, inevitavelmente, têm sempre mais encanto na hora da despedida...


Aos poucos me refaço,
aos poucos me refiro,
aos poucos me retiro,
aos poucos me recordo,
aos poucos
aos poucos
aos poucos me transformo
aos poucos me atrevo,
aos poucos
aos poucos
aos poucos perco o pouco
aos poucos perco o pouso
aos poucos não consigo
aos poucos
aos poucos
a poucos passos da alma
de Coimbra
a poucos momentos do rosto
de Coimbra,
aos poucos
aos poucos Coimbra acho,
a alma
mais que a alma
aos poucos Coimbra mostra
aos poucos
aos poucos Coimbra nasce
e se acrescenta
e se faz
e se deslumbra
e se encanta
aos poucos Coimbra está,
aos poucos
aos poucos
aos poucos Coimbra é
no seu espaço
largo mais que a praça
que nunca se esquecerá.


ÁLVARO ALVES DE FARIA


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terça-feira, julho 13, 2004

Tá tanto calor... 

Comé? Tá tanto calor, brother... Butes prá praia mandar uns mergulhos? Sã Pedro Moel ou Tocha? Uma hora ou hora e meia? Encontramo-nos na beach ou na esplanada?

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A almofada é um lugar calmo? 

É estranho, é incompreensível, é uma facada rápida e inesperada, como se de repente descobrissemos que só nós estamos a rir... uma facada que nos faz sangrar lentamente e nem sabemos porque fomos atacados - estamos a morrer e o fim é inevitável. Não sabemos porque nos odeiam, nem sequer sabemos se nos odeiam, mas vemos nos seus olhos o horror de estarmos à sua frente. Não sabemos, não nos dizem...partimos então em busca da resposta em nós e não a alcançamos e quase damos em loucos, quase acreditamos que realmente somos um monstro. Depois lembramo-nos de um sonho e de que os sonhos fazem sentido.
Há duas noites atrás, surgiu num sonho meu uma certeza. Não me lembro de pormenores, como é normal, mas o que ainda não me saiu da lembrança foi que o protagonista dessa noite mal passada era, afinal, um duplo ser. Para melhor explicar, essas duas pessoas que afinal eram a mesma, eram cada uma delas aquilo que de bom e mau eu encontro nessa personagem da minha vida real. Uma era simples, amorosamente simpática, amorosamente boa e feliz. Quanto à outra, era sarcástica, má, sádica... Como eram iguaizinhas, muitas vezes me confundiam e eu, pensando estar com uma, afinal estava com outra. Foi um sonho terrivelmente real e convém analisá-lo. Contudo, o pior aconteceu quando esse monstro indefinido me acordou... Eu dormia com a almofada em cima da cabeça tentando tapar a claridade, e a primeira coisa que lhe disse foi "Eu sei que tens vontade, eu sei que querias...". Se tivesse dito isso no sonho provavelmente ela me mataria, silenciosamente.
Sabem o que eu vos digo?... A vida está cheia de monstros, ninguém sabe ao certo o quem é. Umas vezes somos os maiores, outras os piores, umas vezes vivemos sonhos, outras pesadelos. A vida é maravilhosa, complicada e simples, a vida é amor mas também é ódio, é sopa deslavada, sobremesa de rei...


Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui

Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer
Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?

Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes
Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar

Acho que gosto de São Paulo
E gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas

Legião Urbana

*Emil Schildt



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sexta-feira, julho 09, 2004

Tingir o tempo 

Hoje não estou inspirada. Parece que nem ontem estive....
Gostaria de saber escrever, fazer um uso implacável das palavras, dar-lhes um sentido mas, se num dia sou ouro, noutro sou prata, se um dia sou cristal, noutro sou granito.
Já vos disse que sou inconstante...
Hoje dói, amanhã mói, depois destrói e constrói...
Apoio-me nos versos Dela, porque eu não diria melhor...


Jack Knudson, Foggy Sunrise

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.


Espero, Sophia de Mello Breyner Andresen

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Quando na tua alma eu me introduzo... 

Eu sei quando te amo:
é quando com teu corpo eu me confundo,
não apenas nesta mistura de massa e forma,
mas quando na tua alma eu me introduzo
e sinto que meu sangue corre em ti,
e tudo que é teu corpo
não é que um corpo meu
que se alongou de mim.

Eu sei quando te amo:
é quando eu te apalpo e não te sinto,
e sinto que a mim mesmo então me abraço,
a mim
que amo e sou um duplo,
eu mesmo
e o corpo teu pulsando em mim.

Pascal Renoux, Husky
Affonso Romano de Sant'Anna, Poemas para a Amiga (Fragmento 2)

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quinta-feira, julho 08, 2004

Corda bamba 

Saí da entrevista satisfeita. Tenho quase a certeza que serei chamada para...a 3ª entrevista. As condições são excelentes e a remuneração, contando com o trabalho que é, é muito agradável.
Entretanto, o moço que falou comigo era muito simpático, bonito e de cabelos grisalhos, com 1/4 de século já vivido, olhos castanhos de mel e...chamava-se Pedro!... Que gajo tão bom, tão lindo mas, chama-se Pedro e, não querendo parecer supersticiosa, os Pedros são uma desgraça... Fazem-me perder a cabeça!!! Até o nome é lindo, Pedro é nome de homem lindo, Pedro e Ana encaixa perfeitamente mas, exceptuando aquele que neste momento me arrebata de sentimento e deixa-me andar na corda bamba (sem saber para que lado que se cai nem com que pé que se samba, como diz o meu amigo Godinho), quero mais é que eles emigrem todos para o Bangladesh...
Se for seleccionada, a primeira coisa que faço é descobrir-lhe o segundo nome...

Pascal Renoix, Souffrance

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Passarinhar... 

...fazer o impossível para lembrarmo-nos que temos asas!!!


Alvaro Poggiani

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quarta-feira, julho 07, 2004

Coelhinho, coelhinho... 


Irina Savkina


Um coelho vai a correr pela selva quando passa por uma girafa que está a enrolar um charro. Vira-se para a girafa e diz:

- Girafa, amiga, não fumes um charro. Vem antes correr comigo para ficares em forma.

A girafa pensa durante um segundo e decide deitar o charro fora e seguir o coelho.
Os dois animais vão a correr, até que passam por um elefante que snifa umas linhas de coca. O coelho aproxima-se do elefante e começa:

- Amigo elefante, pára de snifar coca e vem correr connosco para ficares em forma.

O elefante nem pensa duas vezes. Deita fora o espelho e a palhinha e segue os outros dois.
O grupo continua a correr sem parar, até que passam por um leão encostado a uma arvore a injectar-se. O coelho vira-se para o leão e diz:

- Leão, companheiro, não te injectes mais. Vem antes correr comigo, com a girafa e com o elefante. Até vais ver que ficas em forma.

O leão aproxima-se do coelho e dá-lhe uma patada que lhe arranca a cabeça. Os outros animais, chocados, revoltam-se contra o leão.

- Por que fizeste isso? O coelho só estava a tentar ajudar.

E o leão responde:

- Esse gajo obriga-me sempre a correr pela selva que nem um parvo cada vez que toma ecstasy.

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Apercebam-se!!! 

Não sei se dá para perceber, a quem está enfiado num escritório, do tempo que apanhei na praia. Percebo que é difícil alguém se aperceber quando se está a trabalhar numa sala condicionada por um aparelho, mas era bom que se apercebessem que estava frio e até choveu. Percebe-se que este tempo anda maluco e até se conhece a causa, todos percebemos que o Homem anda a destruir o seu (e de todos) planeta e que qualquer dia deixará de ser seguro prever o que acontecerá em 10 anos. Não sei se percebem...
E uma vez que o tempo estava como já todos percebemos, fiz um bom uso das minhas ricas maozinhas para arrancar uns percebes das rochas e irei, daqui a pouco (mais ou menos quando vocês todos saem dos jobs) deliciar-me com os apetitosos mariscos caprichosos que me deram cabo da riqueza das mãos. Estão a perceber? Alguém é servido?

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Cor, consistência e cheiro 

Sabem o que vos digo…o telefone não tocou mesmo!... e o dia passou-se, exactamente, como eu previa! Que raio, pareço bruxa!

Fui então manifestar-me, à cidade, por eleições antecipadas. Chego lá e, uma vez mais, deparo-me com uma série de desempregados como eu, pessoas que só estão lá porque não têm mais nada que fazer… é uma palhaçada porque acredito que foi como cidadã que lá estive, porque acredito que cada um de nós deverá ter voz e fazê-la ouvir-se mas que este não é um momento para partidos ou centrais sindicais - esta é uma revolta de cada um dos eleitores, independentemente de concordarem ou não com as estratégias seguidas por cada cor política. O Santana não deve ser primeiro-ministro e formar governo porque ele nunca se candidatou, não mostrou as directrizes que o levariam a fazer bem pelo país, porque a governação de um país não é um jogo de futebol em que se passa a bola para o que está mais bem posicionado. O gajo, se quiser, que trabalhe para isso e se prepare para ganhar ou perder…

Entretanto, fui para a bicicletada e, desta vez, já não houve na jukebox todas as músicas do Euro, com pum-pum e sem pum-pum… Na última 5ªfeira, o professor fez questão de me fazer ouvir, pela primeira vez, todas as músicas do campeonato do início ao fim...e repetiu! Hoje, foi Caribe Mix... Quando penso que já tive um fraquinho por ele... Ainda bem que passou rápido...mal descobri que ele nunca tinha ouvido falar do Hard Rock Café!...

É verdade, estou com quilinhos que queria e, para comemorar, depois de ter comido uma comidinha bem saudável, enchi-me de chocolate! Mas isso são outras conversas: o chocolate não engorda, vai directamente preencher as carências afectivas!...ehehehehe!!!

Deixando-me de tristezas, que até já lhes descobri a razão da cruel manifestação (síndrome pré-menstrual), a minha vida anda uma merda, uma bosta que só varia na cor, consistência e cheiro, mas amanhã vou correr para a praia logo cedo e vou mandar uns peidos valentes... Certamente, chegarei mais aliviada, não concordam?

The Moon and the Multitude, Sean Hopp

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terça-feira, julho 06, 2004

Queimar o tempo 

Acordo e, mais uma vez, não tenho nada para fazer...

Como é constante o desiquilíbrio...

Passo um fim-de-semana preenchido e volto para as cinco vezes vinte e quatro horas de estagnação. Vai andando o tempo para todos, uns não têm espaço para nada e fazem tudo...outros, tempo para tudo e não acontece nada!...
Espero por um telefonema de trabalho prometido que nunca mais chega. Tenho uma 2º entrevista só para a próxima 5ª feira e, se for aceite, novamente será marcada outra sabe-se lá para daqui a quantos dias... amanhã compro o D.Quixote e recomeço na leitura...hoje vou-me manifestar por eleições e depois fazer uns sprints de bike...retornarei ao ninho e o telefone não há de ter tocado uma única vez.

Estou a morrer lentamente em cada parte da minha vida... mas continuo-me a achar uma pessoa de sorte...

Lembro-me do provérbio chinês em que um homem que não tinha sapatos se achava infeliz até ter passado por um que não tinha pés... mas devo eu me contentar por saber que há pessoas que estão em pior situação que eu?!?

Estabilidade? ahahahahah!!! ainda me chamam carente!... pois digo eu que vá para a merda quem pode e não faz, quem tem e não quer, qualquer roto que se sinta bem por me ver nua!...


Rawabi Al-Nuaimi

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segunda-feira, julho 05, 2004

Do outro lado... 

Nova fase sim, sem dúvida. A lua já está a decrescer e com ela parece que também em mim vai desvanecendo o brilho. Desta vez, ela deu toda a luz que podia, encheu-se de esperanças e aclarou os espíritos em meu redor. Doravante, cabe-lhes a eles a decisão de retornarem à vida já ou sustentarem-se com a (in)certeza do minguante... A lua nada mais lhes pode valer, recolhe-se agora com o fulgor de prata antes cedido para os iluminar.
Os espíritos, esses seres incorpóreos que sopram subtis tormentas para os de carne e osso, vivem enforcados no oculto e o seu mundo só a si lhes pertence. Parecem querer materializar-se quando o sol aparece... sorriem e, com o seu olhar, inevitavelmente e sem que se apercebam, despem-se de mistério.
Se eu pudesse-lhes tocar, se os nossos mundos se cruzassem, se eles soubessem o que existe deste lado, talvez assim se apercebessem que ser espírito não é vida para ninguém, que sentir não mata, que sentir é viver, correr, mexer, vibrar, cantar, sofrer, amar, nadar, rir, escolher, chorar, contemplar, beber, sonhar, gritar, tocar, perder, ganhar...
*Emil Schildt






Alireza Farahani, Me and the Clouds


Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner



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sexta-feira, julho 02, 2004

Era uma vez uma cenoura... 

Quero transmitir a loucura que já se imagina e se começa e lubrificar por estas bandas...
Passo pela Funda São, releeio o post e sigo até aos comentários...hummm, é verdade, vocês têm todos razão!...
Talvez seja esta fertilidade no auge, este período de ovulação que me conduz à crescente 'esão e ao endurecimento mamilar (dos mamilos, para quem não entende); talvez seja a lua cheia a influenciar ou a noção que em mais ou menos oito horas subirei quatro andares, de mini-saia, e que serei seguida por ele que, com todas as certezas, reparará nas cuequinhas e não se privará de tentar arrancá-las...
Outra provável causa poderá ser o post "Azar no jogo, sorte no amor" do Eye of the Tiger no qual ele dá ideias para a falta de imaginação. Ao reler esse post lembrei-me, relativamente à imaginação, que um amigo meu um dia esculpiu um falo numa cenoura, esperando que a namorada entrasse no jogo. Parece que ela ficou maravilhada com a invenção e no final desse exercício recreativo a cenoura, perdão, o falo, acabou por se deixar ficar mesmo dentro...do estômago.
Assim vos deixo, aproveitem-se uns aos outros e deixem fluir a imaginação...
Jan Saudeck, At the Waterfront, Study No. 2

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A nova fase, um novo luar 

Amanhã é noite de lua cheia. Tenho medo de me perder quando a noite está assim, receio a claridade, o luar…
Vou partir, não vou para longe, mas sei que qualquer passo que dou é sempre uma viagem e este, este será decisivo para a continuidade ou não desta caminhada. Na bagagem levo as vestimentas da ilusão e a crua realidade – sei, certamente, que uma delas me cobrirá no regresso.
Poderia deixar andar, é fácil adiar. Adio uns dias, depois já se passaram semanas, meses e quando olho para trás não vejo futuro nenhum, apenas um presente de desequilíbrios, de falta semi-constante e de excessos esporádicos embrulhados em papel de fantasia.
Chegou a hora do futuro, que o tempo não perdoa! Nem o tempo, nem eu que também sou feita de tempo... Quando nos sentimos vivos não podemos esperar, apercebemo-nos que esperar pelo futuro é ser enterrado vivo, é lentamente dar um passo sem se sair do lugar… Só tenho medo é da claridade do luar, que a lua é inimiga da racionalidade.


*Moonshine, Jose Marquez

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quinta-feira, julho 01, 2004

Silenciosamente 

Não tiveste coragem para ficares comigo mas eu não aguentei e quando me decidi ir até ti, encontrei-te numa pose indecente, pareceu-me que havias brincado, sozinho, e estavas silenciosamente a dormir, angelical como um menino em corpo de homem estoirado. Chamei-te um figo e sem resitência comecei a beijar-te o corpo todo, lambi-te a barriga e desci enquanto te puxava a roupa, te tirava a pele. Sem contar, o teu amigo ouvio um som, mexeu-se e disse qualquer coisa, talvez tenha escutado um suspiro ou os meus beijos molhados e o pudor fez-me parar, não tive indecência para continuar, descaradamente, a lamber-te enquanto dormias ou fingias... Desisti e voltei para o meu chão frio, para o lado de alguém que eu não podia agarrar.
Estendida no chão frio, repousava o corpo excitado e, de repente, abri os olhos e vi-te, senti os teus dedos puxarem os meus e levaste-me para a casa-de-banho. Não se ouvia um ruído. Fechamos a porta e encostaste-me à parede enquanto me rasgavas o decote da blusa vermelha. Essa língua húmida deslizou pelas minhas formas perturbadas, reafirmadas enquanto o meu pé desatava os cordões do teu pijama. Apoiei-o no móvel e deixei-te vires ainda para mais perto de mim... entraste pelo calor dentro, levantaste-me os braços e prendeste-os com as tuas mãos enquanto te mexias dentro de mim. Por essa altura já as nossas peles escorregavam uma na outra e pela parede escorria suor, depois pelo lavatório e até pelo bidé. Sem previsibilidade, de um momento para o outro, foste-te embora! Ai, ai, ai...isso não se faz!!! Deixaste-me sozinha, cega de prazer, na casa-de-banho??? ai, ai, ai...isso pensas tu!!! Só te posso desvendar que o prazer continuou, silenciosamente...

*Kala as an Angel, Emil schildt

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